site da FAPESP
FAPESP na Mídia

Publicado em: Carta Capital (ESPECIAL) em 24 de Novembro de 2004

O mundo no Bom Retiro

Por POR MARTA NEHRING - FOTOS SATORU TAKAESU

São Paulo é, provavelmente, a cidade mais cosmopolita do mundo - mais até do que Nova York. E, no coração da metrópole, o bairro do Bom Retiro é a síntese, o exemplo máximo dessa vocação para a convivência e a mistura de povos e costumes. Depois de passar por um grande letreiro que dá boas-vindas ao visitante, quem vira à direita na rua Prates, já se depara com uma miscelânea cultural. Letreiros de lojas em coreano mesclam-se às fachadas de uma boa dezena de sinagogas, empórios de comida kosher ladeiam restaurantes e lanchonetes com especialidades gregas como burekas, as japonesas susbis e sashimis, além das pizzarias e pastelarias. Novos locais de cultos evangélicos, com horários em coreano, disputam a freguesia com antigos templos católicos. Uma senhora asiática, que passa carregando o netinho nas costas, cruza com uma família de traços indígenas, talvez recém-chegada de algum país andino. Mais adiante, um senhor judeu de barba farta come abacaxi na banca de frutas de um rapaz com sotaque nordestino. Já quem segue pela rua José Paulino encontra uma das zonas comerciais mais movimentadas da cidade. As lojas se enfileiram, os camelos dominam as calçadas, milhares de sacoleiras de todo o Brasil puxam suas compras. Engana-se quem vê nas butiques e grifes da rua Oscar Freire, no badalado coração dos Jardins, o símbolo maior do Brasil globalizado. Os confeccionistas do Bom Retiro viajam algumas vezes por ano aos principais centros da moda - Paris, Milão, Tóquio - para, na volta, reproduzir as principais tendências a preços imbatíveis. A globalização do Bom Retiro tem mão dupla. Por lá também circulam compradores vindos de terras do além-mar, como Angola e Moçambique. E um consórcio de confecções, todas de proprietários coreanos, organiza exportações para os Estados Unidos. Compradores de lugares mais distantes do Brasil fazem suas encomendas pela internet. Mas, a exemplo da moda produzida em outros centros globais, como Nova York e Los Angeles, a roupa feita no Centro de São Paulo tem por combustível as mãos baratas e laboriosas dos imigrantes ilegais. Diz a história que o bairro deve o nome à "Chácara do Bom Retiro", uma das tantas destinadas ao recreio das famílias ricas nos idos do século XIX. Do marquês de Três Rios, um dos proprietários originais, restam o nome da rua e de uma oficina cultural. Mas a história do Bom Retiro, como aliás de tantos bairros paulistanos, está ligada à industrialização e à vinda da mão-de-obra imigrante. As fábricas de fiação, tecelagens e olarias chegaram no fim do século XLX, com a estrada de ferro São Paulo Rail-way, atual Santos-Jundiaí. Ainda hoje, trens urbanos correm por seu traçado. O Bom Retiro nasceu como bairro fabril e operário que contrastava com seu nobre vizinho, Campos Elíseos, das mansões neoclássicas e alamedas. Na rua dos Imigrantes, hoje José Paulino, próxima às estações da Luz e Júlio Prestes, foi construída a primeira Hospedaria dos Imigrantes, transferida para o Brás em 1888. Além das fábricas e das casas dos operários, no bairro também proliferavam pequenas oficinas de marcenaria, fábricas de massas, calçados, tinturarias, manufaturas de roupas e chapéus, no meio termo entre a indústria e o comércio. Nos anos 40, por obra do prefeito Prestes Maia, os prostíbulos da rua dos Timbiras são transferidos para as atuais ruas Aimorés e Cesare Lombroso. A nova vizinhança afasta muitos dos antigos residentes do bairro, que a essa altura assumia ares de reduto judaico. Da presença dos imigrantes italianos - que se mudaram para outras partes da cidade - resta a rua dos Italianos, os versos de Juó Bananère dedicados aos Studenti du Bó Retiro e a paróquia de Santo Eduardo. Nessa época, a rua José Paulino era um considerável ponto comercial. Lá, nos anos 20, instalaram-se novas levas imigrantes: judeus do Leste Europeu, oriundos, em sua maioria, de vilarejos remotos da Lituânia, Polônia e Rússia. Segundo testemunham seus descendentes, muitos vieram porque acreditavam que "no Brasil se achava dinheiro na rua". Fantasias à parte, vários dos que resistiram ao clima conseguiram melhorar de vida. Começaram como mascates, depois passaram a confeccionar "roupas prontas" (na época, o costume era fazer as roupas em casa ou encomendá-las à costureira). Logo sentaram praça na José Paulino e imediações. Fundaram a sinagoga da rua da Graça, possivelmente o primeiro marco arquitetônico da comunidade judaica em São Paulo. Atualmente, o movimento na região começa de madrugada, com a chegada dos comboios fretados do interior de São Paulo, de Minas Gerais e do Sul do País. A maioria traz grupos de lojistas reunidos por guias especializados. Às 6 da manhã, as portas dos ônibus se abrem. Sacoleiros, com cara de sono, tiram as malas, sacolas e carrinhos vazios do bagageiro. Na José Paulino, as primeiras lojas a abrir oferecem cafezinho. Começa a peregrinação. Mas não só de roupas prontas vive o Bom Retiro. Por quarteirões a fio encontram-se todos os ramos de comércio ligados à indústria do vestuário, aquilo que se chama de cluster, ou seja, a proximidade geográfica dos mesmos ramos de uma indústria: botões, aviamentos, tecidos, lojas de máquinas de bordado, de costura, de passar, de conserto de máquinas, de etiquetas, de embalagens. As agências de turismo do bairro revelam a origem de seus clientes: são passageiros da israelita Sharon Tour e, atualmente, sobretudo da Corean Airlines. A grande novidade trazida pelos coreanos à região, anteriormente dominada por judeus, é a indústria fashion. Antes, as confecções do bairro produziam apenas roupa. Os modelos e os tecidos pouco variavam ao longo dos anos. Hoje, a cada semana novas coleções surgem nas vitrines. Nascida no Bom Retiro, onde o pai foi proprietário de uma malharia, há quase uma década a produtora de cinema Silvia Wolfenson não visitava o bairro. A mudança na paisagem é radical. No lugar dos letreiros em iídiche e hebraico, Silvia encontra nomes e anúncios em coreana. No local do antigo galpão da fábrica paterna, um estacionamento. As lembranças de Silvia falam de um lado pouco conhecido da colônia judaica em São Paulo. "A Casa do Povo era aqui", diz ela ao passar por um prédio mal conservado da rua Três Rios. "Havia uma cisão entre judeus de esquerda e de direita", conta Silvia. Fundada pelo Partido Comunista, a Casa do Povo era uma instituição cultural que não fazia parte da Federação Israelita, lembra. Foi ali que, em plena ditadura militar, marcaram presença artistas como Sérgio Ricardo e Paulinho da Viola. Na época, um diferencial dos judeus de esquerda era a luta contra o sionismo e sua política isolacionista. A escola da Casa do Povo, Scholem Aleichem, aceitava crianças não-judias, ao contrário de outras escolas judaicas da cidade. De mascates, os judeus passaram a representantes das indústrias e hoje se tornaram os principais fornecedores de tecido. A Lycra nacional é considerada uma das melhores do mundo, bem como a malharia. Quem garante é Theodore Assimakopoulos, grego do Peloponeso, cristão ortodoxo, aqui chegado nos anos 50. O forte da imigração grega aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte para a Austrália e os Estados Unidos. Theodore escolheu o Brasil, atraído pelo livro "Brasil, país do futuro", do escritor judeu-alemão Stephan Zweig. Oriundo da cidade de Kiparissia, aportou no Rio de Janeiro depois de 24 dias de viagem. Era carnaval. "As mulheres dançavam na ruas", conta. "Achei que tinha chegado ao paraíso." Então com 26 anos, Theodore partiu para São Paulo, atraído pelo grande pólo comercial do País. A exemplo do que já faziam os judeus, foi trabalhar com roupas prontas. Abriu uma confecção de moda praia. "Estou há 45 anos no mesmo lugar", anuncia com orgulho, apontando para os modelos da nova coleção. Outros imigrantes gregos iniciaram o prêt-à-porter da camisaria masculina. "Por volta de 1962, eram mais de 3 mil os gregos do Bom Retiro", lembra Theodore. "Hoje, não tem nem 200, mas ainda existem umas 20 firmas de descendentes." A maior parte dos gregos, como os italianos e judeus, migrou para bairros mais valorizados e seus filhos e netos escolheram outras profissões. Ainda assim, é possível encontrar a velha-guarda tomando um cafezinho nas manhãs de domingo no restaurante Acrópoles, ali perto, na rua da Graça. Na visão de Theodore, o Brasil é mesmo o país do futuro de seu livro de juventude. "A sede da ONU devia ser aqui. Todas as raças convivem em paz. Especialmente em São Paulo, a cidade mais cosmopolita do Brasil." O grupo seguinte de imigrantes a aportar no Bom Retiro, no fim da década de 60, foi a dos coreanos. Lembra Otília, que aqui chegou aos 17 anos, com os pais: - Saímos de navio da Coréia, viajamos 60 dias e desembarcamos no Porto de Santos. A intenção de todo mundo era imigrar para os Estados Unidos, mas o único país que recebeu os coreanos que queriam deixar seu país foi o Brasil. As famílias foram transportadas para as frentes agrícolas do Paraná. Otília lembra, sem muitas saudades, as imensas extensões de terra vermelha. A experiência agrícola não deu certo e a maior parte preferiu rumar para São Paulo. A confecção da família de Otília, a Octopussy, fica na rua Cesare Lombroso. Como a maior parte das empresas de moda geridas por coreanos, a loja fica na antiga zona do meretrício. Sinal dos tempos, as fachadas agora têm estilo clean, vidros amplos e vitrines fashion. O conjunto impressiona, sobretudo numa região até recentemente degradada pelos reflexos da especulação imobiliária, que, juntamente com a miséria e a criminalidade, desvalorizou todo o Centro velho de São Paulo. A língua não foi uma barreira pequena para a adaptação dos coreanos. De acordo com Celina, da confecção Chinty's, é esse o motivo pelo qual eles ganharam fama de fechados, para não usar outros termos. Mas "todos têm uma interação muito boa no Brasil, adoram o País", assegura. Contrariando o otimismo do grego Assimakopoulos, a inserção dos imigrantes não se fez sem traumas. Carolina, que estudou em um colégio de classe média alta, o Santa Cruz, conta: "Desde pequena eu batia boca com os coleguinhas de classe. Tinha um que insistia: não existe Coréia, você é japonesa. Eu gritava, chorando: eu sou coreana, minha mãe é coreana!" Chamar todos os orientais de japonês é uma das várias formas de expressão de preconceito, lembra Carolina. As Últimas levas consideráveis de imigrantes estrangeiros chegaram ao Bom Retiro em meados da década passada atraídas pela paridade do real com o dólar que então vigorava. Numa generalização semelhante à que identifica todo oriental como japonês, é comum que esses novos habitantes do bairro sejam chamados indistintamente de "bolivianos". A grande maioria veio de fato da Bolívia, mas a possibilidade de arranjar trabalho nas oficinas de costura também atraiu muitos paraguaios e peruanos. Durante a semana, a presença desse grupo no Bom Retiro é discreta. Muitos são imigrantes ilegais e passam o dia enfurnados nas oficinas. Mas aos domingos é diferente. Perto do pólo comercial, do outro lado da avenida Tiradentes, fica a praça Lourenço Francolino. Rebatizada pelos freqüentadores como Plaza Kantuta, nome de uma flor típica do altiplano andino. E lá que se reúne a numerosa, mas em grande parte oculta, colônia boliviana de São Paulo, com a pequena minoria de outros povos vizinhos. O tráfego de vans é intenso: chegam e despejam, às dezenas, gente que trabalha de sol a sol e só sai nos domingos à tarde. A grande maioria dos freqüentadores é composta de homens jovens, mas há também famílias com crianças pequenas: a primeira geração brasileira. A chamada "feira boliviana" da praça Kantuta é um aglomerado de barracas brancas, cedidas pela Prefeitura, ao redor de uma quadra de futebol soçaite. Há comida típica, CDs, artesanato, vídeos, barbeiros, anúncios de emprego e um canto onde se alugam celulares para chamadas internacionais. As bebidas mais procuradas são o suco feito de pêssego seco e o api, um mingau de milho branco servido com xarope de frutas vermelhas. A animação fica por conta do alto-falante que transmite comunicados em espanhol, quéchua e aimará, línguas indígenas andinas. Nazário e sua mulher, Rosa, têm aquela que é conhecida como a melhor barraca de salteftas, as típicas empanadas bolivianas. Os dois vieram, já casados, para trabalhar na costura. "Viemos só para ganhar US$ 500 para depois abrir um negócio lá na Bolívia", diz Rosa, que completa, rindo: "Mas só ganhamos mais filhos". Numa barraca de artesanato está exposta a revista da CUT sobre trabalho escravo. Indagada sobre o teor da matéria, a vendedora protesta, indignada: "Não somos escravos, viemos aqui para trabalhar". A questão do trabalho nas oficinas é um divisor de águas entre os novos imigrantes do Bom Retiro. O boliviano Pascual, por exemplo, trabalha numa pequena oficina de costura. No local há apenas uma trabalhadora brasileira. "É que os bolivianos são mais dedicados", alega a proprietária. "É verdade sobre a escravidão, eu mesmo já sofri. Costurar das 7 até as 2, 3 horas da madrugada, isso não é trabalhar demais?", pergunta Pascual, que agora se diz feliz: no ateliê onde trabalha, a jornada é de oito horas diárias. Pascual crê que o problema está na ilegalidade: "As pessoas se assustam, têm medo porque estão sem documentos". Johny, seu colega de oficina, não tem tempo para conversa. Mergulhado na máquina, tenta cumprir a quota diária. Até porque o espera um árduo caminho de volta para casa: mora com a mulher e o filho recém-nascido no 17º andar de um prédio, na avenida Prestes Maia, tomado por integrantes do movimento dos sem-teto. O local não é longe, mas o edifício não tem elevador. Apesar de boa parte dos proprietários de oficinas de costura clandestina ser de bolivianos, a revolta sobre as condições de trabalho recai em geral sobre os coreanos. Assim, o que se convencionou chamar de luta de classes toma ares de conflito étnico mais ou menos ostensivo. Os coreanos se defendem contando que quando chegaram também foram explorados - pelos judeus - e lembram que muitos bolivianos já estão subindo na vida, abrindo seus próprios negócios. É a opinião de André, dono da confecção Hidrogênio, que chegou ao País no colo da mãe, imigrante coreana: "Daqueles trabalhadores esforçados saem grandes empresários". De volta à praça Kantuta, o boliviano Wilson, que se casou com uma brasileira, diz, com o filho pequeno no colo, que o problema não é só com eles, os "bolivianos", mas com as populações indígenas, negras e pobres em geral: "As portas só se abrem para os brancos". A história e o cotidiano do Bom Retiro servem de exemplo de convívio multiétnico e também mostram que o Brasil tem ainda um bom caminho a percorrer antes de se concretizar como democracia sociorracial. Esta reportagem baseia-se no documentário A Moda do Centro, dirigido por Marta Nehring. O filme, atualmente em estágio de finalização, é um projeto do Centro de Estudos da Metrópole patrocinado péla Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Foi realizado graças à pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), coordenada por Avaro Comin, e à dissertação de Branislav Kontic sobre os circuitos étnicos e a indústria têxtil e de vestuário.