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FAPESP na Mídia

Publicado em: Jornal da USP em 6 de Agosto de 2000

Uma evolução contada pelas rochas

Depois de oito meses fechado para reformas, o Museu de Geociências da USP reabriu recentemente remodelado, mais confortável e mais didático. Graças a uma verba de R$ 200 mil dada pela Fapesp. o museu reformou seus 460 melros quadrados, trocou piso e teto, instalou nova iluminação e ainda adquiriu equipamentos para criar um centro de computação - um banco de dados informatizado com a localização exata de cada uma das suas 10 mil peças, das quais 5 mil estão em exposição no andar superior do Instituto de Geociências (IGc) da USP. Ainda sem data de inauguração prevista, o centro de computação depende da contratação de técnicos especializados. Mesmo sem essa inovação, o visitante tem agora mais facilidades para aproveitar melhor o acervo do Museu de Geociências. As peças encontram-se separadas de acordo com o interesso do público. De um lado ficam vitrines com centenas de exemplares de rochas raras, à espera de especialistas em busca de dados científicos para suas pesquisas. Do outro lado está o acervo destinado a atender ã curiosidade dos cerca de 20 mil leigos que anualmente visitam as instalações - a maioria proveniente das escolas de ensino fundamental e médio. Novidade no museu, essa "coleção didática" traz alguns requintes que tornam a geologia uma disciplina mais próxima do colidiano. Numa de suas vitrines, por exemplo, o visitante se depara com uma lasca de rocha chamada fluorita. Ao lado dela, estão expostas duas caixas de pasta de dentes com flúor - um material obtido da fluorita -, demonstrando a importância daquela rocha no dia-a-dia. Da mesma forma, uma corrente de ouro descansa junto a uma pedra incrustada por ouro e uma caixa de remédio denuncia o uso medicinal da rocha ao seu lado, rica em zinco. O cobre no estado em que se encontra na natureza compartilha o mesmo espaço com os aparelhos elétricos e eletrônicos em que é utilizado. É uma ótima forma de despertar o interesse dos alunos pela geologia", afirma a diretora do Museu de Geociências. Maria Lúcia Rocha Campos. DENTES DE SABRE Logo adiante, o visitante se vê diante de vitrines com exemplares dos tipos de rochas presentes na natureza - as rochas magmáticas (que resultam do resfriamento do magma, o material que compõe o interior do planeta, como o gianito), as sedimentares (provenientes de detritos sedimentados em camadas, como o calcário e o arenito) e as metamórficas (surgidas graças às condições de pressão, temperatura, gases e vapores de água, que criam novos minerais sem fundir a rocha, como o quartzo). É nesse local que se encontra o exemplar mais antigo do museu - um pedaço de uma rocha meta mortiça chamada gnaisse morton, com idade estimada em 3,6 bilhões de anos, apenas poucos milhões de anos mais nova do que a Terra, surgida há cerca de 4 bilhões de anos. Mas tem mais. Uma seção dedicada aos fósseis mostra réplicas de seres extintos em épocas quase inimagináveis. Entre eles encontram-se alguns dos primeiros moluscos conhecidos, como os trilobites, organismos que viveram nos oceanos durante toda a era Paleozóica (de 500 a 250 milhões de anos atrás) - o segundo dos quatro grandes períodos da história geológica do planeta, seguido pela era Mesozóica (de 250 a 100 milhões de anos atrás) e pela era Cenozóica (de 100 milhões de anos atrás até os dias atuais). O primeiro período é denominado era Proterozóica (desde o endurecimento da crosta terrestre até 500 milhões de anos atrás). Há ainda, na coleção de fósseis, as réplicas de um crânio de dinossauro de 70 milhões de anos, de peixes sem mandíbulas de 370 milhões de anos e do mesossaurídeo, o mais antigo réptil aquático conhecido, espécie que viveu no Brasil e na África por volta de 240 milhões de anos atrás. Deixando os répteis, o visitante entra no ambiente das cavernas, reproduzido numa vitrine poucos metros distante da seção dos fósseis, Ali se encontram algumas das mais belas e singelas formas geológicas modeladas pela natureza nas profundezas da Terra, como as estalactites e as estalagmites - as barras de calcário que, respectivamente, descem do teto e se elevam do chão das cavernas -, as pérolas e os cálices, rochas que assumem formas diversas. Nessa vitrine, tudo foi retirado do ambiente natural - com exceção da reprodução de um travertino, que na realidade são imensas "piscinas" formadas pela erosão. Para saciar a curiosidade do público - que, criança ou adulto, gosta de locar nas peças -, o museu separou uma mesa com rochas que podem ser mexidas. Essa talvez seja a única oportunidade que o visitante lerá na vida de levantar com suas próprias mãos uma psilomelanita - uma curiosa rocha negra -, um pedaço de carvão, um quart/o com turmalina incrustada ou uma porção de óxido de manganês. Em breve, o museu deverá inaugurar uma seção dedicada somente a gemas, como se chamam as pedras preciosas já lapidadas. Outras atrações estão espalhadas pelo museu. Pode-se apreciar, por exemplo, uma ágata - cortada de modo que as figuras desenhadas naturalmente na rocha se assemelham a olhos de coruja -, esferas de quartzo transparentes lapidadas de forma absolutamente circular, uma água-marinha de 5,5 quilos e a pedra Lei do Japão, um raro caso em que dois quartzos estão incrustados um no outro, assumindo a forma de um coração. O superpesado meteorito Santa Luzia - do grupo dos sideritos, ricos em ferro - e grandes geodos (rochas ocas cujas paredes internas são revestidas de cristais) de ametislas valem também longos minutos de atenção. Ao final da visita, o público pode fazer compras no próprio museu e levar para casa souvenirs originais - como a réplica de um trilobite de pelo menos 250 milhões de anos ou a réplica de um dente de tigre-de-dente-de-sabre, animal medonho que viveu na América do Sul há 10 mil anos. As lembranças saem por menos de R$ 10,00. Por mais R$ 15,00 leva-se para pendurar na parede a reprodução de restos fossilizados de um mesossaurídeo incrustados na rocha. O museu vende também camisetas, chaveiros e adesivos. O Museu de Geociências do Instituto de Geociências da USP está localizado na rua do Lago, 562, na Cidade Universitária. O horário de visitas vai de segunda a sexta-feira, das 8 às 12 e das 13h30 às 17 horas. As visitas de grupos escolares precisam ser agendadas com antecedência. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 818-3952.