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Publicado em: Valor Econômico (Opinião) em 5 de Fevereiro de 2019

Os dilemas do Grande ABC

Por Sandro Maskio e Anapatrícia Vilha

Entre 2000 e 2015, região teve a pior retração de sua história recente

Para quem observa os dados agregados da economia do Grande ABC, composta por 7 municípios1 que respondem por aproximadamente 2% do PIB nacional, com mais de 700 mil trabalhadores empregados formalmente e detentora do 5º maior potencial de consumo do país, pode avaliar que se trata de uma região pujante, amplamente competitiva e com excelente perspectiva de crescimento futuro. Tudo isso induzido por sua grandeza e marcada pela trajetória da indústria, cuja participação se mostra mais intensa quando comparada às economias nacional e paulista.
Entretanto, em todos os quinquênios entre 1980 e 2000 a taxa média de crescimento da economia do Grande ABC foi negativa, e de forma mais intensa junto à atividade industrial, após significativo crescimento observado na década de 1970. Somente no período entre 2000 e 2010 a região voltou a ter uma taxa de crescimento positiva, com média de 2,3% ao ano. Entretanto, entre 2010 e 2015 a região apresentou a pior retração de sua história recente, com uma retração média de 4,4% ao ano.
Além dos efeitos da abertura econômica intensificada na década de 1990, que levou as empresas sobreviventes a adotarem estratégias defensivas e tornou a região um grande importador de insumos industriais, somados aos elevados custos dos terrenos e do trabalho local, à atuação dos sindicatos frente a presença das grandes plantas industriais e os efeitos sobre o comportamento destas, a região do ABC também sentiu os efeitos da política de interiorização da atividade industrial realizadas pelo governo do Estado de São Paulo. O PIB industrial do Grande ABC, que representava cerca de 8,5% do PIB nacional do setor em 1970, encolheu para aproximadamente 3,2% em 2010.
A partir dos anos 1990, a região do Grande ABC não conseguiu reconverter a dinâmica de sua economia para a atração de investimentos produtivos de monta e de geração de competitividade regional. Considerando a análise de dados realizada em 2018 da Pintec (Pesquisa de Inovação Tecnológica/IBGE) em amostra de empresas do Grande ABC, verificou-se, em todas edições da pesquisa, que as principais atividades inovativas estão relacionadas à aquisição de máquinas, equipamentos e treinamentos, sendo percebidas como vetores para ampliar a participação da empresa no mercado e melhora de sua qualidade, consignando às universidades e institutos de pesquisa atores periféricos neste esforço.
O baixo volume de acesso das empresas localizadas na região do ABC a mecanismos de financiamento à inovação oferecidos pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), assim como os incentivos fiscais da Lei do Bem para desenvolvimento tecnológico e inovativo corroboram a argumentação relativa acerca da dificuldade do ABC de se reconverter para uma econômica mais dinâmica, industrializada, competitiva e inovadora.
O PIB INDUSTRIAL DO GRANDE ABC, CERCA DE 8,5% DO PIB DO SETOR EM 1970, ENCOLHEU PARA CERCA DE 3,2% EM 2010
O fato é que não se conseguiu estruturar um sistema regional de inovação dinâmico, com a integração dos atores regionais potencialmente capazes de colaborar com a geração de competências que viessem a se tornar fatores diferenciais de competitividade nesse novo estágio de geração do conhecimento e cujo impacto é indiscutível em diversas regiões no território nacional e internacional, como a atração de empreendimentos e atividades produtivas estruturantes do processo de desenvolvimento regional, em geral geradoras de elevado valor adicionado e integradas a importantes cadeias de valores mundiais.
Isto posto, nos cabe a reflexão que procura entender em que medida estamos diante de um processo de aprisionamento e dependência de caminhos dos quais a região do ABC trilhou para se tornar grande sob o ponto de vista econômico produtivo? Como pensar novas trajetórias tecnológicas e econômicas a região do ABC precisa desenvolver para continuar sendo grande?
Na tentativa de colaborar com o debate para elucidar essas questões, é importante salientar que embora estejamos diante de um cenário de desafios claramente identificados, o ano de 2017 registrou a confirmação de mais de US$ 5 bilhões em investimentos na região a serem realizados especialmente pelo setor automobilístico, em boa parte estimulados pelo regime tributário diferenciado ao setor, bem como pelo ganho externo de escala, dado pela qualificação da mão de obra e pela rede de serviços setoriais instalados no ABC. Essa expectativa de investimento foi o maior da série registrada pela Fundação Seade, a ser concretizado até o início da década de 2020.
Nessa perspectiva, é razoável pensar no processo de reconversão da matriz produtiva instalada na região, já que ela demonstra ter uma vocação que pode ser estimulada por meio da ampliação da capacidade tecnológica e inovativa, que contribua com a cadeia instalada a se inserir de forma mais intensa competitiva no atual cenário de evolução tecnológica.
Outros elementos podem ser avistados no debate para a região, como a necessidade de atração de investimentos empresariais a partir do desenvolvimento de novas cadeias produtivas no ABC (como saúde; materiais embarcados; manufatura avançada, biotecnologia, nanotecnologia); alavancagem do empreendedorismo; liderança e articulação política regional (reposicionando os organismos de articulação como o Consórcio Intermunicipal Grande ABC2 e Agência de Desenvolvimento Econômico Grande ABC); além do adensamento da interação entre as empresas e as universidades localizadas, em especial àquelas que oferecem uma agenda de pesquisa e desenvolvimento tecnológico densos.
_1. A região é composta pelos municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul._
_2. O Consórcio Intermunicipal Grande ABC surgiu no início da década de 1990 com a proposta de se consolidar como um espaço para a busca de soluções de problemas comuns aos municípios da região, com a participação dos gestores públicos e representantes da sociedade civil. Em 1998, a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC surgiu como um braço operacional do Consórcio para as questões ligadas ao desenvolvimento econômico regional._

Para quem observa os dados agregados da economia do Grande ABC, composta por 7 municípios1 que respondem por aproximadamente 2% do PIB nacional, com mais de 700 mil trabalhadores empregados formalmente e detentora do 5º maior potencial de consumo do país, pode avaliar que se trata de uma região pujante, amplamente competitiva e com excelente perspectiva de crescimento futuro. Tudo isso induzido por sua grandeza e marcada pela trajetória da indústria, cuja participação se mostra mais intensa quando comparada às economias nacional e paulista.

Entretanto, em todos os quinquênios entre 1980 e 2000 a taxa média de crescimento da economia do Grande ABC foi negativa, e de forma mais intensa junto à atividade industrial, após significativo crescimento observado na década de 1970. Somente no período entre 2000 e 2010 a região voltou a ter uma taxa de crescimento positiva, com média de 2,3% ao ano. Entretanto, entre 2010 e 2015 a região apresentou a pior retração de sua história recente, com uma retração média de 4,4% ao ano.

Além dos efeitos da abertura econômica intensificada na década de 1990, que levou as empresas sobreviventes a adotarem estratégias defensivas e tornou a região um grande importador de insumos industriais, somados aos elevados custos dos terrenos e do trabalho local, à atuação dos sindicatos frente a presença das grandes plantas industriais e os efeitos sobre o comportamento destas, a região do ABC também sentiu os efeitos da política de interiorização da atividade industrial realizadas pelo governo do Estado de São Paulo. O PIB industrial do Grande ABC, que representava cerca de 8,5% do PIB nacional do setor em 1970, encolheu para aproximadamente 3,2% em 2010.

A partir dos anos 1990, a região do Grande ABC não conseguiu reconverter a dinâmica de sua economia para a atração de investimentos produtivos de monta e de geração de competitividade regional. Considerando a análise de dados realizada em 2018 da Pintec (Pesquisa de Inovação Tecnológica/IBGE) em amostra de empresas do Grande ABC, verificou-se, em todas edições da pesquisa, que as principais atividades inovativas estão relacionadas à aquisição de máquinas, equipamentos e treinamentos, sendo percebidas como vetores para ampliar a participação da empresa no mercado e melhora de sua qualidade, consignando às universidades e institutos de pesquisa atores periféricos neste esforço.

O baixo volume de acesso das empresas localizadas na região do ABC a mecanismos de financiamento à inovação oferecidos pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), assim como os incentivos fiscais da Lei do Bem para desenvolvimento tecnológico e inovativo corroboram a argumentação relativa acerca da dificuldade do ABC de se reconverter para uma econômica mais dinâmica, industrializada, competitiva e inovadora.

O fato é que não se conseguiu estruturar um sistema regional de inovação dinâmico, com a integração dos atores regionais potencialmente capazes de colaborar com a geração de competências que viessem a se tornar fatores diferenciais de competitividade nesse novo estágio de geração do conhecimento e cujo impacto é indiscutível em diversas regiões no território nacional e internacional, como a atração de empreendimentos e atividades produtivas estruturantes do processo de desenvolvimento regional, em geral geradoras de elevado valor adicionado e integradas a importantes cadeias de valores mundiais.

Isto posto, nos cabe a reflexão que procura entender em que medida estamos diante de um processo de aprisionamento e dependência de caminhos dos quais a região do ABC trilhou para se tornar grande sob o ponto de vista econômico produtivo? Como pensar novas trajetórias tecnológicas e econômicas a região do ABC precisa desenvolver para continuar sendo grande?

Na tentativa de colaborar com o debate para elucidar essas questões, é importante salientar que embora estejamos diante de um cenário de desafios claramente identificados, o ano de 2017 registrou a confirmação de mais de US$ 5 bilhões em investimentos na região a serem realizados especialmente pelo setor automobilístico, em boa parte estimulados pelo regime tributário diferenciado ao setor, bem como pelo ganho externo de escala, dado pela qualificação da mão de obra e pela rede de serviços setoriais instalados no ABC. Essa expectativa de investimento foi o maior da série registrada pela Fundação Seade, a ser concretizado até o início da década de 2020.

Nessa perspectiva, é razoável pensar no processo de reconversão da matriz produtiva instalada na região, já que ela demonstra ter uma vocação que pode ser estimulada por meio da ampliação da capacidade tecnológica e inovativa, que contribua com a cadeia instalada a se inserir de forma mais intensa competitiva no atual cenário de evolução tecnológica.

Outros elementos podem ser avistados no debate para a região, como a necessidade de atração de investimentos empresariais a partir do desenvolvimento de novas cadeias produtivas no ABC (como saúde; materiais embarcados; manufatura avançada, biotecnologia, nanotecnologia); alavancagem do empreendedorismo; liderança e articulação política regional (reposicionando os organismos de articulação como o Consórcio Intermunicipal Grande ABC2 e Agência de Desenvolvimento Econômico Grande ABC); além do adensamento da interação entre as empresas e as universidades localizadas, em especial àquelas que oferecem uma agenda de pesquisa e desenvolvimento tecnológico densos.

1. A região é composta pelos municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul._

2. O Consórcio Intermunicipal Grande ABC surgiu no início da década de 1990 com a proposta de se consolidar como um espaço para a busca de soluções de problemas comuns aos municípios da região, com a participação dos gestores públicos e representantes da sociedade civil. Em 1998, a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC surgiu como um braço operacional do Consórcio para as questões ligadas ao desenvolvimento econômico regional.

Sandro Renato Maskio, doutorando do Programa de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC. Prof. e coordenador de Estudos do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo.

Anapatrícia Morales Vilha professora e doutora do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas (CECS) dos Programas de pós graduação Stricto Sensu em Economia e Biotecnociência da UFABC