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Publicado em: Jornal da USP (Pesquisa) em 27 de Julho de 1997

Fapesp financia melhoria do ensino básico

Por Miguel Glugoski

Pela primeira vez, a Fapesp tem um programa de pesquisas aplicadas para melhoria do ensino público básico no Estado. Nele estão envolvidas 300 escolas de 1º e 2º graus e já foram destinados recursos superiores a R$ 7milhões. "Um aprendizado para todas as partes envolvidas", diz o diretor científico da Fundaçã

Fapesp chega ao ensino básico Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) começa a se relacionar com um novo público: escolas de primeiro e segundo graus e, consequentemente, com os profissionais e setores envolvidos nesse nível de educação. E o faz por intermédio do Programa de Pesquisas Aplicadas sobre a Melhoria do Ensino Público no Estado de São Paulo, que já destinou recursos da ordem de R$ 7, 2 milhões - R$ 5 milhões em 1996 e R$ 2,2 milhões este ano - na forma de bolsas de estudo e aquisição de equipamentos. Do programa já participam cerca de 300 escolas da Capital e do Interior. De acordo com o diretor científico da Fapesp, professor José Fernando Perez, há uma crescente consciência internacional de que o sistema de pesquisa deve envolver-se com o ensino básico e começar por aí o processo de difusão da ciência e do conhecimento. "Temos consciência cristalina disso e temos os recursos", disse Perez, acrescentando que o impacto do programa será sentido não apenas nas escolas parceiras, mas também no universo da pesquisa nacional. Sem contar, segundo o diretor científico, que a iniciativa representa um aprendizado para todas as partes envolvidas, a começar pela própria Fapesp, acostumada a lidar com pesquisadores de nível superior. Mas os professores universitários não ficarão de fora mesmo nesse programa, pois são eles que apresentam e fundamentam os projetos e desenvolvem as atividades de pesquisa junto com as escolas públicas. Durante quatro anos serão trabalhados projetos em várias áreas de ensino, notadamente ciências, matemática, aprendizagem, física, química, agricultura, formação de professores, história, educação e saúde, educação especial e biblioteconomia. Na primeira fase, houve inscrição de 153 projetos, com aprovação de 25; na segunda etapa, foram feitas 75 inscrições e 14 obtiveram aprovação. O professor Perez explica a razão da recusa relativamente alta de propostas. É que todo projeto precisa ter caráter de pesquisa, pois não compete à Fapesp financiar atividades, por mais interessantes que sejam, que não se apresentem assim caracterizadas. Por essa razão, os projetos recusados inicialmente poderão ser reapresentados, desde que incluam suficiente "elemento de reflexão crítica". E as novas propostas podem ser apresentadas à Fapesp até 30 de setembro. Primeira avaliação Uma primeira avaliação do programa de melhoria do ensino público foi feita dia 27 de junho, na sede da Fapesp, com a presença da secretária estadual de Educação, professora Rose Neubauer, coordenadores de 25 trabalhos, diretores e representantes das escolas envolvidas, além de coordenadores dos 14 projetos aprovados este ano. No total, quase 300 pessoas. O professor Perez considera que a análise foi muito importante, principalmente porque foi possível detectar problemas (e sucessos) comuns a todos os grupos e compatibilizar missões de natureza diferente. "Um aprendizado para todos", resume o diretor científico da Fundação, continuando: "Verificou-se que os programas são mais bem sucedidos quando a pesquisa responde a questões concretas da escola". Um projeto que mais chamou a atenção do professor Perez situa-se no ensino agrícola, em Jaboticabal, e envolve toda a escola. Os alunos tiveram participação numa atividade de pesquisa bem palpável, a adubação. Trata-se do Colégio Técnico Agrícola e o projeto tem na coordenação o agrônomo e professor da Unesp Euclides Caxambu Alexandrino de Souza. A experiência deve ser estendida a 29 escolas agrícolas do Estado. A professora Heloísa Szymanski, da PUC, coordenadora de um projeto que procura aproximar a escola e os professores da realidade dos educandos, atrelando a aprendizagem à vida cotidiana e à experiência deles, disse na reunião ter sido surpreendente a resposta dos professores à pesquisa: "Eles perceberam que essa atividade otimiza a sua função pedagógica; quanto aos estudantes universitários que participam do projeto, ficou clara a distância entre o discurso teórico e a prática". Sua pesquisa envolve duas escolas públicas da periferia da Capital, onde, segundo a professora, 50% dos alunos são filhos de migrantes, principalmente do Nordeste. Entre os projetos a serem desenvolvidos no segundo semestre deste ano estão os coordenados pelas professoras da USP Reiko Isuyama, do Departamento de Química Fundamental, e Iole de Freitas Druck, da Matemática. O projeto de Reiko envolve 20 professores de várias escolas da 14a Delegacia de Ensino da Capital e o objetivo é avaliar o material didático para ensino de química no 2o grau, tomando por base o curso de química do Telecurso 2000, e produzir novos materiais, fazendo a transposição desse curso supletivo para um curso regular. Química, História e Matemática Iole fará uma análise comparada das duas diferentes estruturas para formação de professores de 1o grau mantidas pela Secretaria Estadual de Educação: a Habilitação Ensino de Magistério (colegial), com mais um ano específico para quem quer ser professor, e a Habilitação feita no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Magistério, estrutura especialmente montada para formação de professores. Há um projeto na área do ensino de História, coordenado pela professora Zilda Iokoi, também da USP. Articula uma pesquisa histórica sobre Diadema e a região do ABC paulista, desde o século 16. O resultado previsto desse trabalho com alunos é uma série de publicações de livros e a confecção de mapas, pranchas fotográficas e plantas.. Haverá versões distintas para adultos e crianças. Novos projetos Entre os 14 projetos aprovados na segunda fase do programa, as novidades, segundo a professora Marília Pontes Sposito, da Faculdade de Educação da USP, são as propostas na área de educação ambiental, ausentes da primeira etapa. Segundo ela, "vale destacar também o aumento da presença de projetos de universidades do interior do Estado. Enquanto na primeira etapa 50% eram do interior, nesta há um índice de 78,5%". Projeto coordenado pelo professor Wagner Farid Gattaz, da Faculdade de Medicina da USP, trata da eficácia de um programa educativo sobre o uso de drogas e comportamento sexual para alunos da rede pública estadual. Outra proposta aprovada, coordenada pelo professor Luiz Roberto Alves, da Escola de Comunicações e Artes da USP, pretende recolher contos e casos populares na periferia de São Paulo. É um trabalho de reflexão sobre as categorias que compõem a memória histórica popular e também a presença da cultura popular nos meios de comunicação. O professor Perez esclarece que "o programa é novo no papel, mas nasceu de amplas discussões com a comunidade". Para garantir a qualidade dos trabalhos todos os projetos serão acompanhados e visitados periodicamente por membros de comissões específicas.