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Publicado em: A Tribuna (Santos, SP) (Economia) em 13 de Agosto de 2012

A ciência da grama

Pesquisadores brasileiros criam o primeiro centro de pesquisa nacional para gramados esportivos

A iniciativa é dos engenheiros agrônomos Roberto Lyra Villas Boas (Unesp Botucatu) e Leandro Grava de Godoy, da Unesp em Registro, no Litoral Sul. Um dos objetivos é criar o primeiro padrão brasileiro para classificação dos campos usados em grandes eventos, como o Campeonato Brasileiro de Futebol, a futura Copa do Mundo e a Olimpíadado Rio de Janeiro em 2016. Hoje, a definição de qualidade de um gramado natural ainda é feita na base do ‘olhômetro’. “No caso do futebol, cabe ao juiz, em sua vistoria prévia, determinar se o campo está apto. Não existem parâmetros técnicos que possam determinar se ele é ótimo, bom ou médio. Teremos que criar essa classificação”,explica Godoy. Para isso, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), equipamentos estão sendo importados e mini campos serão construídos para se testar uma série de parâmetros.

Eles incluem desde a superfície e os melhores tipos de grama para cada clima do País, passando pelo processo de construção do campo e drenagem, até a análise da velocidade da bola e seu quique, sem falar na interação com os atletas, seja de que modalidade for. Hoje, explicam os especialistas, esse tipo de definição só existe para a grama artificial. No mês passado, inclusive, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) anunciou novos padrões que devem ser seguidos pelos fornecedores.

PIONEIRISMO

Nos EUA, a gramicultura já é muito difundida, com centros de pesquisas em várias universidades. “No Brasil, seremos os primeiros”, diz Godoy.

O gramado sintético foi inaugurado na década de 60, no estádio de beisebol Astrodome, em Houston, no Texas (EUA). Porém, para o professor Godoy, no caso brasileiro, a grama natural é a melhor alternativa. ”Temos tecnologia que nos permite obter um gramado de ótima qualidade”. No máximo, o que pode ser feito é uma espécie de fusão entre o sintético e o vegetal, como aconteceu em alguns estádios da última Copa do Mundo da África do Sul.

COSTURADA

Lá, a grama sintética foi ‘costurada’ à grama natural. Essa alternativa, que pode ser aplicada já em 2014, é mais indicada para climas frios e áreas muito sombreadas – gramados naturais gostam de sol e muita água – mais de 40 mil litros a cada dois dias no verão. Por isso, com exceção da Região Sul e de estádios que venham a ter cobertura, mesmo que parcial, já há uma espécie de grama que se adapta muito bem ao clima tropical. É a bermuda’ (Cynodon dactylon), que ainda possui uma variedade, chamada de ‘celebration’, que resiste bem ao sombreamento. Esse tipo de grama é usado, por exemplo, na Vila Belmiro. Mas é a partir da chegada dos equipamentos, que são portáteis, que os pesquisadores vão literalmente entrar em campo. Com a ajuda da tecnologia, eles vão começar a descobrir quais os campos onde a bola tem o seu quique e velocidade ideais.

Eles pretendem, também, determinar quais as superfícies que melhor interagem com os atletas, evitando, por exemplo, problemas nas articulações. Outra preocupação é com a tração, evitando que tuchos de grama se soltem ou, pior, que acabem prendendo os pés e gerando torções. Até mesmo a coloração da grama, que a Fifa preconiza como sendo verde escura, levada em consideração.

SEGREDO

Tudo isso será feito a partir do zero, já que os parâmetros utilizados em gramados artificiais não são divulgados pela FIFA, Já as empresas, de segredo industrial, também não fornecem dados. “Nós não sabemos o que é o bom. Mas, lima vez tendo as informações precisas, poderemos criar índices e tabelas que nos permitirão gerar um ranking”, explica Godoy. Para isso, eles contam com uma parceria internacional, firmada com a Universidade de Auburn, no Alabama. Nos EUA, a gramicultura já é muito difundida, com centros de pesquisas em várias universidades. “No Brasil, seremos os primeiros”, diz Godoy.