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João Antônio, literatura e experiência social no Brasil

Processo: 18/13020-3
Linha de fomento:Auxílio à Pesquisa - Publicações científicas - Livros no Brasil
Vigência: 01 de dezembro de 2018 - 30 de novembro de 2019
Área do conhecimento:Linguística, Letras e Artes - Letras - Literatura Brasileira
Pesquisador responsável:Júlio Cezar Bastoni da Silva
Beneficiário:Júlio Cezar Bastoni da Silva
Instituição-sede: Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH). Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). São Carlos , SP, Brasil

Resumo

A obra de João Antônio (1937-1996), escritor e jornalista paulistano, constitui-se como um amplo painel da sociedade brasileira contemporânea. Conhecido por sua literatura voltada às camadas sociais marginalizadas, tema preferido e mote central de sua obra, o autor compõe, para além da representação da pobreza urbana da segunda metade do século XX, período marcado pela urbanização e mudança de perfil da sociedade brasileira, uma visada pessoal que sugere uma mudança de registro na figuração literária da alteridade, tradicionalmente atrelada, em variado feitio, à construção de uma imagem cujo ponto de fuga se atrela à questão nacional, suas possibilidades e óbices. Integrado e sempre fazendo referência, em suas intervenções na imprensa, ensaios ou textos jornalísticos, a essa tradição literária local, João Antônio propõe, enquanto projeto literário, a representação do que chama de "radiografias brasileiras", exposto em seu texto-manifesto "Corpo-a-corpo com a vida": trata-se, para o autor, de voltar-se aos desvãos sociais, aos ambientes marginais e degradados, à figuração da desigualdade frente a qual se posiciona ao lado do "povo", entendido por ele como as classes sociais subalternas.Tal projeto literário, proposto em publicação que ocorre depois de doze anos de seu primeiro livro de contos, 'Malagueta, Perus e Bacanaço' (1963), traça, em retrospectiva e como linha-mestra de sua produção posterior, a preocupação com a figuração do povo brasileiro, perfazendo-a, porém, de modo que à notação realista ou neonaturalista se alie uma visão profundamente pessoal sobre essa camada social, o que cria uma dualidade de registros que, significativamente, se alterna ou se combina ao longo de sua trajetória. Assim, à objetividade demandada em "Corpo-a-corpo com a vida", pode-se dizer que se soma uma representação profundamente empática da voz narrativa em relação aos seus personagens, o que perfaz uma relativa idealização da miséria urbana e a elevação de tais personagens a entes representativos de um projeto nacional brasileiro ainda inconcluso. No entanto, as mudanças ocorridas em sua obra ficcional nesse modo particular de representar a subalternidade brasileira, que se dão na sucessão de suas coletâneas de contos ou reportagens, parecem indicar um progressivo desencantamento com os destinos do país, em especial no período que se inicia a partir da década de 1980, quando se dá o início da transição entre o período da ditadura militar e a redemocratização. Essa alteração indica a impossibilidade de continuar a representar a pobreza de sua forma tradicionalmente idealizada, o que ocorre, justamente, em consonância à emergência de uma literatura que flagra a cruenta violência e o conflito ubíquo que cerca a nova configuração da sociedade brasileira, característica que a literatura de João Antônio passa ao largo. Nesse sentido, se anteriormente é possível falar em uma estética conciliatória na obra de João Antônio, que expressa em latência um projeto de fundo nacional-popular, tal característica se transmuta em uma "estética do rancor" (conforme a proposição de João Luiz Lafetá), a qual se traduz em uma perspectiva agônica frente aos destinos do país. De um Brasil possível, portanto, a um Brasil do impasse.Fruto de uma pesquisa apoiada pela FAPESP, esse livro, assim, a partir de uma perspectiva que considera a mútua relação entre produção literária e a sociedade brasileira, propõe pensar a obra de João Antônio como a elaboração de uma perspectiva singular sobre o país, suas mudanças e dilemas históricos, bem como a situação da literatura nesse contexto, no qual a produção do autor paulistano ocupa posição particular. Trata-se, desse modo, de uma ampla apresentação e exame do projeto literário do autor, considerando a interação entre sua produção jornalística e a ficcional, que desvelam os dilemas sociais brasileiros da segunda metade do século XX, tais como representados por meio de sua produção. (AU)