Resumo
A Organização Mundial da Saúde elenca a resistência a antibióticos como um dos principais problemas de saúde pública, segurança alimentar e desenvolvimento de novos medicamentos. Atualmente, diversas espécies bacterianas possuem múltiplos mecanismos de resistência à antibióticos, dificultando o tratamento de infecções bacterianas humanas e em animais. O uso dos bacteriófagos ou fagos - vírus que infectam bactérias - como alternativa aos antibióticos tem ganhado cada dia mais atenção para tratamentos médicos e veterinários. O Brasil é o quinto maior produtor de leite e possui o segundo maior rebanho bovino comercial do mundo, e o uso de antibiótico no processo de criação de rebanhos leiteiros é extensivo, o que implica em diversos custos adicionais ao produtor e ao possível surgimento de bactérias resistentes. A principal causa desse uso excessivo de antibióticos é a mastite: uma inflamação da glândula mamária que leva a alterações físicas e químicas do leite produzido, e pode ser causada por mais de 130 diferentes micro-organismos, sendo as principais bactérias causadoras Staphylococcus aureus, Staphylococcus coagulase negativos, Streptococcus agalactie, Mycobacterium bovis e Escherichia coli, (ACOSTA et al., 2016). A mastite se manifesta de duas formas, clínica e subclínica. Nos casos clínicos, a infecção das glândulas mamárias pode ser diagnosticada pela detecção de sintomas sistêmicos e dos sinais cardinais da inflamação, além de alterações na produção, composição e/ou qualidade do leite. Na forma clínica, os principais agentes causadores são Staph. aureus, Strep. agalactiae e Mycoplasma spp.. Já nos casos subclínicos, a infecção fica silenciosa, não sendo evidente a sintomas sistêmicos ou localizados na glândula mamária, sendo, em geral, detectada por alterações nas provas de exame do leite. Nos casos subclínicos os principais agentes são Streptococcus spp. e E. Coli (TOMAZI et al., 2018). Os tratamentos convencionais de curta ou longa duração contra a mastite são realizados com a aplicação intramamária de antibióticos. Entretanto, o uso de antibióticos exige o descarte do leite do animal sob tratamento, aumentando os custos, reduzindo a capacidade de produção e algumas vezes podendo levar à perda funcional da glândula mamária até a morte do animal. Portanto, a busca por novos tratamentos são importantes para o aumento da produtividade, aumento da saúde e bem-estar animal e a diminuição do uso de antibióticos. Sendo assim, propomos a utilização de um coquetel de bacteriófagos para tratamento de infecções bacterianas causadoras de mastite em rebanhos bovinos. O coquetel será composto por pelo menos seis bacteriófagos (fagos) que irão atuar em conjunto eliminando as principais bactérias causadoras de mastite. Considerando a etiologia da doença e à abundância das espécies isoladas a partir de casos de mastite no Brasil, serão prospectados fagos capazes de eliminar bactérias responsáveis por mais de 80% dos casos de mastite (BRAGA et al., 2018), pertencentes as seguintes espécies: Staphylococcus aureus (0-70,3%), Streptococcus agalactiae (13-67%), Corynebacterium bovis (9,1-32%), Staphylococcus não aureus (21-58,3%) e Escherichia coli (7-24%) (ABEGEWI et al., 2022; AWANDKAR; KULKARNI; KHODE, 2022; ISRAEL et al., 2022; MESQUITA et al., 2019; POUTREL et al., 2018). Os fagos serão isolados a partir da natureza, suas características morfológicas, estabilidade (pH e temperatura), genoma, espectro de infecção e interação em conjunto serão avaliadas com o objetivo de selecionar os fagos com maior potencial para tratamento da mastite. O coquetel será avaliado sobre sua atuação conjunta, depois será desenvolvida uma formulação para aplicação intramamária, que será avaliada em relação à eficiência de entrega dos fagos em ensaios pré-clínicos in vitro e in vivo. A formulação escolhida será avaliada em sua estabilidade em uso e vida de prateleira e posteriormente o produto passará por ensaios clínicos de atividade e efetividade. (AU)
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