Resumo
A costa brasileira era povoada em tempos pré-coloniais por sociedades baseadas na pesca cuja extensão cronológico-espacial é das maiores da história indígena sulamericana. Estas sociedades, de baixa mobilidade residencial e demografia densa, ocuparam um território que abrange milhares de quilômetros ao longo da costa atlântica entre c. 8500 e 1500 anos AP e construíram os denominados "sambaquis", montículos compostos principalmente por conchas e outros resíduos cotidianos. O estudo dos sambaquis é um dos temas mais clássicos da arqueologia brasileira, no entanto, a história profunda das sociedades voltadas para a pesca e arquitetura em concha ainda é tema de discussão entre pesquisadores/as que trabalham nos diferentes estados da região Sul, Sudeste e Norte, onde se localiza a maior quantidade de sítios. Uma das principais dificuldades é a tendência a considerar aos grupos litorâneos como um fenômeno pan-Atlântico e homogêneo, devido à onipresença de sambaquis em grande parte do litoral, seu frequente uso como cemitério e a semelhança aparente na cultura material. No entanto, estudos bioarqueológicos e arqueogenéticos revelaram micro-diferenciações regionais que unicamente se tornam visíveis ao diminuir a escala de observação. Estudos realizados pela pesquisadora responsável desta proposta mostraram a complexa dinâmica de formação dos sambaquis, cuja estratigrafia é formada pelo retrabalhamento de eventos cotidianos que podem ser descobertos a partir de métodos microarqueológicos. Contudo, o conhecimento dos processos de formação de sítios a escala local é ainda uma grande lacuna na arqueologia do litoral brasileiro.Neste projeto, a história profunda da costa atlântica, associada às sociedades pescadoras que produziram e vivenciaram as paisagens marcadas pela arquitetura de conchas, será estudada através de uma nova linha de pesquisa: a Microarqueologia. Esta abordagem permitirá produzir dados inéditos sobre o cotidiano dos grupos que habitaram a costa, mediante estudos de alta resolução sobre formação e uso dos sambaquis, para desvendar histórias relativas às sociedades costeiras e os processos de contato cultural que provocaram sua transformação. A Microarqueologia, ou estudo do registro arqueológico invisível ao olho nu e alcançável com o uso de instrumentos (Weiner 2010), é uma das áreas de maior desenvolvimento na arqueologia contemporânea. A combinação de dados microarqueológicos (microscopia, geoquímica, mineralogia, microbotânica e arqueogenética) permite a completa caracterização dos contextos arqueológicos e produz informações fundamentais sobre: formação do registro, etapa essencial para construir qualquer interpretação sobre as análises artefatuais, faunísticas ou bioarqueológicas; uso dos recursos animais vegetais; relação dos grupos com o ambiente que habitavam; mudanças induzidas por fatores ambientais e/ou de contato cultural; e ancestralidade dos grupos humanos pré-coloniais.Este projeto tem como meta desenvolver estudos de caso regionais a partir da escavação de dois sítios e sua análise microarqueológica interdisciplinar que combine dados ambientais, geoarqueológicos, bioarqueológicos, arqueobotânicos, arqueogenéticos e etnográficos. As áreas de pesquisa contempladas serão o litoral norte do Espirito Santo (sítio Lagoa Bonita 1), e o litoral sul de Santa Catarina (sítio Jabuticabeira II). Esta proposta, de caráter interdisciplinar, consolidará a linha de pesquisa em Microarqueologia na instituição sede, a trará informações inéditas sobre mudanças ambientais e culturais na costa brasileira. (AU)
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