Resumo
Praticamente metade da população mundial corre o risco de contrair malária. Com quase 250 milhões de casos relatados em 2022, a malária é uma doença que ainda impõe um fardo pesado às populações em risco, especialmente em países tropicais e em desenvolvimento. Além das 608 mil mortes anuais relacionadas à malária, a doença também impacta significativamente saúde e qualidade de vida geral, sobrecarregando os sistemas de saúde pública e causando perdas econômicas. O ciclo de vida do Plasmodium vivax envolve múltiplos compartimentos ocultos no hospedeiro humano que são desafiadores de se detectar e identificar, incluindo estágios hepáticos dormentes (hipnozoítos), cuja ativação acarreta em novo episódio malárico. Além disso, sua propensão a invadir glóbulos vermelhos jovens (reticulócitos) resulta em infecções que podem ocorre em nichos hematopoiéticos privilegiados (e.g. medula óssea), em vez da circulação sanguínea periférica. A produção precoce e contínua de formas sexuais infectivas aos mosquitos (gametócitos) não só permite um alto potencial de transmissão, mas também expande o alcance do parasita além dos limites sazonais e geográficos; representando um desafio significativo aos esforços de eliminação da malária. Achados recentes de análises do transcriptoma, a nível de célula única (scRNAseq), mostraram um comprometimento sexual precoce de parasitas ainda no seu estágio hepático dormente. Esses achados colocam a expressão de AP2-G, um regulador-chave da gametocitogênese, como um mecanismo compartilhado entre hipnozoítas e gametócitos. O mesmo estudo sugere que deficiência de metabólitos como ferro ou tipos específicos de lipídios estão relacionados a quiescencia hepática em P. vivax. Importante destacar que, os impressionantes 90% de casos de malária vivax devidos as recorrências, que juntamente com transmissão de gametócitos, antes mesmo do aparecimento dos sintomas, exigindo não apenas novas terapias de quimioprevenção e bloqueio de transmissão, mas também indicadores confiáveis para ajudar a vincular as taxas de recorrência à dinâmica de transmissão em áreas endêmicas. Embora a atividade reduzida do CYP2D6, a alta gametocitemia e a terapia inadequada/descontinuada com primaquina tenham sido propostas como moduladores da suscetibilidade à recorrência, não está claro o que impulsiona o risco de recorrência quando estes fatores são controlados. A identificação, por meio de uma abordagem multiômica, dos fatores do hospedeiro ou do parasita relacionados as recorrências na malária vivax podem orientar novas estratégias de tratamento e controle da transmissão. O estudo da interação entre a biologia das principais formas parasitárias, como gametócitos, e seus nichos de desenvolvimento, orientará a descoberta de novos alvos moleculares. Portanto, diante complexa interação parasito-hospedeiro, acreditamos que avaliar a suscetibilidade/risco dos indivíduos à recorrência, bem como o entendimento dos mecanismos associados a resistência parasitária de novas moléculas eficazes em combater as diferentes formas parasitárias, nos permitirá integrar esforços para melhorar a epidemiologia, a prevenção e as estratégias de controle da malária vivax. (AU)
| Matéria(s) publicada(s) na Agência FAPESP sobre o auxílio: |
| Mais itensMenos itens |
| TITULO |
| Matéria(s) publicada(s) em Outras Mídias ( ): |
| Mais itensMenos itens |
| VEICULO: TITULO (DATA) |
| VEICULO: TITULO (DATA) |