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A paixão do negativo: Lacan e a dialética

Processo: 05/04274-1
Linha de fomento:Auxílio à Pesquisa - Publicações científicas - Livros
Vigência: 01 de março de 2006 - 28 de fevereiro de 2007
Área do conhecimento:Ciências Humanas - Filosofia - Epistemologia
Pesquisador responsável:Vladimir Pinheiro Safatle
Beneficiário:Vladimir Pinheiro Safatle
Instituição-sede: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo , SP, Brasil
Assunto(s):Sujeito  Dialética  Psicanálise  Negação 

Resumo

Este estudo visa configurar o campo dos problemas vinculados à determinação da racionalidade da clínica analítica lacaniana e a suas elaborações metapsicológicas a partir de uma confrontação com aspectos da tradição dialética de origem hegeliana. Tal confrontação pode mostrar como o encaminhamento da experiência intelectual lacaniana foi orientado, em larga medida, por reflexões sobre a estrutura do sujeito e de seus modos de subjetivação de forte matriz hegeliana. Não se trata aqui de perguntar se Lacan foi hegeliano, até porque, a resposta é trivialmente negativa. Mas a modernidade nos mostrou que há várias maneiras de não ser hegeliano, e uma delas consiste em superar os impasses postos pela conceitografia hegeliana. Trata-se de aceitar o diagnóstico hegeliano tentando, com isto, resolver os problemas engendrados pela estrutura representacional da razão moderna. Isto nos coloca diante da seguinte alternativa : a praxis e a metapsicologia analítica desdobram-se no interior do horizonte da dialética hegeliana, mas elas produzem uma transformação neste horizonte. Ou seja, trata-se de não confundir partilha de diagnóstico e aceitação do sistema. Lacan teria aceitado o diagnóstico hegeliano a respeito da decomposição da razão moderna, da centralidade da negação na estruturação do pensamento, das dicotomias produzidas pelo princípio de identidade, da irredutibilidade ontológica de um conceito não-substancial de sujeito e da possibilidade em pensar um regime não-fantasmático de identificação entre o sujeito e o objeto. Ele teria aceitado também o encaminhamento hegeliano: partir do princípio de subjetividade a fim de alcançar uma experiência de Real que não se submeteria mais ao regime de verdade como adequação. Crítica da identidade que não excluiria modalidades possíveis de reconciliação reflexiva entre o idêntico e o não-idêntico e de reconhecimento entre o sujeito e o Outro. Reconhecimento constituído a partir da centralidade da dialética entre sujeito/objeto, e não exatamente através da posição prévia de um horizonte de transparência reguladora intersubjetiva. Mas Lacan teria tomado distância dos dispositivos de totalização sistêmica presentes em Hegel. Tal estratégia lhe teria permitido demonstrar a existência de um gênero de dialética negativa como pano de fundo da praxis analítica. Se este for o caso, teremos a autorização para pensar em outras bases a relação entre Lacan, Hegel e certos momentos da dialética no século XX, como é o caso, principalmente, de Theodor Adorno. O esboço de uma convergência possível entre Adorno e Lacan no que diz respeito, principalmente, às estratégias de defesa da irredutibilidade de um conceito não-substancial de sujeito e de uma alternativa a uma racionalidade intersubjetiva aparece ao final do livro. Neste sentido, ele pode ser central para a compreensão da racionalidade de uma clínica da subjetividade como é a psicanálise, isto por permitir uma melhor configuração da estrutura pressuposta pelo conceito lacaniano de sujeito e de suas "relações de família".Pois se trata de mostra que, longe de dissolver a subjetividade em um retorno ao ser como destinação originária ou em uma crítica que vê a irredutibilidade do sujeito como resíduo metafísico, Lacan procurou, durante toda sua longa experiência intelectual, sustentar a figura do sujeito, mas livrando-a de um pensamento da identidade. Neste ponto, sua estratégia encontra necessariamente Adorno. Nas mãos dos dois, o sujeito deixa de ser uma entidade substancial que fundamenta os processo de auto-determinação, para transformar-se no locus da não-identidade e da clivagem. Operação que ganha legibilidade se lembrarmos que a raiz hegeliana comum dos pensamentos de Lacan e de Adorno permitiu-lhes desenvolver uma articulação fundamental entre sujeito e negação que nos indica uma estratégia maior para sustentar a figura do sujeito na contemporaneidade. (AU)