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Reconhecimento, utopia, distopias. os sentidos da política de cotas raciais

Processo: 10/09704-2
Linha de fomento:Auxílio à Pesquisa - Publicações científicas - Livros no Brasil
Vigência: 01 de dezembro de 2010 - 30 de novembro de 2011
Área do conhecimento:Ciências Humanas - Educação
Pesquisador responsável:Gislene Aparecida dos Santos
Beneficiário:Gislene Aparecida dos Santos
Instituição-sede: Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo , SP, Brasil
Assunto(s):Negros  Inclusão social  Brasil  Cota racial 

Resumo

Neste livro, meu objetivo é verificar os sentidos que a política de cotas raciais passou a ter em função daquilo que mobiliza tanto no campo político-educacional quanto no campo do imaginário social. Focalizo como os beneficiários desta política a representam; ou seja, se a consideram uma política de Estado eficiente; em que medida reconhecem nela um avanço no sentido da promoção da igualdade, da democracia, da cidadania, na luta contra o preconceito; se a identificam como a forma ideal de acesso ao ensino superior. Para isso, recortei como campo de trabalho escolas públicas de segundo grau na periferia de São Paulo e duas universidades públicas nas quais essa política foi implementada. Nos capítulos demonstro: 1- como, por meio das relações entre causas e efeitos, é possível compreender e organizar os argumentos utilizados por aqueles que defendem e aqueles que criticam as cotas raciais enfatizando a importância que a racialização assume para cada um deles; 2- como é possível recuperar a lógica das relações entre causas e efeitos na análise do conteúdo das falas dos jovens entrevistados; 3- como 'cotista' passou a indicar identidades e oferecer parâmetros para alteridades dentro do espaço universitário determinando formas de inclusão, exclusão e negociação em rede; 4- como os jovens 'cotistas' recuperam, em suas falas, a semântica do discurso sobre cotas afirmado pelos defensores (no campo teórico) desta política e reafirmam esse discurso como forma de organização de todos os negros para a construção de uma identidade coletiva ou do sujeito político 'negro'; 5- como, o sujeito político negro se alicerça em torno de questões de direito e questões educacionais por meio da proposição de novos conteúdos para o conhecimento e para a educação formal; 6- como os jovens projetam uma nova utopia. Nesta projeção, o uso da categoria 'raça' não aparece como um problema (tal como apontado pelos críticos das cotas) já que, em suas cadeias de causas e efeitos, é imaginado um tempo futuro no qual a racialização - que se mostra como causa de desigualdades no tempo presente - tenha sido abolida. Por outro lado, os críticos das cotas projetam uma distopia ou um futuro negativo quando da racialização oficial resultaria segregação e racismo; 7 - avalio que o fato da discussão sobre o acesso à universidade estar sendo apartada da discussão sobre empregabilidade, mercado de trabalho e re-valorização do trabalho dá mostras do caráter utópico presente neste discurso; 8- discuto os afetos de ressentimento e desejo como alicerces das ações coletivas dos movimentos sociais e as fantasias em torno da racialização e demonstro como a projeção do problema da racialização para o futuro torna possível que, no presente, o projeto político que envolve a cotas seja afastado do estigma do ressentimento como patologia social e se aproxime de uma concepção de 'democracia' na qual se tolera a manifestação do desejo dos negros, mas não o emprego da força necessária para que ele seja satisfeito; 9- que a avaliação da política de cotas pela ótica da mera inclusão ou da reparação não contempla todo o sentido que ela assumiu como parte de um projeto político de transformação que articula vários elementos. Sem considerar todos esses aspectos, não é possível alcançar o valor simbólico desta política. Concluo que as cotas cumprem o papel de efetuar a inclusão de uma pequena parcela da população negra. Contudo, além disso, efetiva um 'pacto' entre brancos e negros, Estado e movimentos sociais, de modo que as estruturas sejam mantidas e os desejos e os medos contidos. Parte desta solução é representada pelo 'autorização' dos discursos tanto da distopia quanto da utopia. A adoção da política de cotas funciona como uma solução de compromisso já que, no lugar da revolta que alteraria toda a estrutura na qual a desigualdade foi gerada, são negociadas pequenas alterações que não impedem a constante produção de injustiças, mas permite que a sociedade seja apaziguada. (AU)