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Drummond: um poeta criador

Resumo

É no léxico de uma língua que se reiteram, se transformam, se mantêm, se sustentam os modelos mentais, os sistemas de valores, os recortes culturais, os pontos de vista e as práticas de um grupo sociocultural. Dessa forma, estudar as transformações do léxico no decorrer de um período nada mais é do que perceber de que maneira se estrutura o pensamento e a visão desse grupo. Logo, estudar as criações de um autor é ver como se estrutura a sua própria visão de mundo. Em nossos dias, a imprensa é a grande responsável pelo lançamento de criações lexicais. Elas acabam por vir à tona com tanta naturalidade que, muitas vezes, nem nos damos conta de que estamos diante de um novo vocábulo. As palavras novas, quando usadas com grande frequência, fazem com que desapareça rapidamente um possível choque da novidade, tornam-se conhecidas e sofrem o processo de desneologização. Depois que se integram no vocabulário usual, acabam por tornar-se, muitas vezes, símbolos de certo momento histórico ou de certos grupos sociais.Há, entretanto, criações que surgem com um objetivo específico, são válidas para aquele determinado momento e dificilmente chegarão a fazer parte do dicionário de língua. São as criações literárias com objetivo estilístico.Chamadas por Guilbert de criações neológicas estilísticas, elas se apóiam na expressividade, pois, traduzindo ideias não originais de uma maneira nova, exprimem, de forma inédita, uma certa visão pessoal de mundo. Pensando exatamente nesse tipo de criação lexical, tentamos mostrar quais os processos neológicos utilizados por Carlos Drummond de Andrade e qual o efeito obtido com eles. Drummond é um poeta considerado pela crítica por sua temática e sua facilidade de lidar com as palavras e expor seus pensamentos, suas críticas, seus amores, suas (des)ilusões. Trata-se, entretanto, de um poeta-criador. Um poeta que trabalha com as palavras e, criando-as ou recriando-as, enriquece seu texto com um estilo próprio e pessoal. Montando ou desarticulando palavras, incorporando o visual, fragmentando a sintaxe, Drummond é mestre.O próprio poeta enxerga-se como um "lutador", aquele que sabe das dificuldades de se lutar com as palavras, mas não abandona nunca essa árdua tarefa. Além disso, sabe de sua possibilidade de aprender palavras, ou criá-las e enriquecer as já existentes, dando-lhes expressividade. As palavras têm "faces secretas" e guardam um segredo. Drummond tem a chave desse segredo.Aqui mostraremos suas criações lexicais, suas montagens, suas desmontagens, suas brincadeiras com as palavras e com a língua. Frente a esse grande material linguístico e estilístico, pretendemos verificar quais os procedimentos linguístico-gramaticais utilizados pelo poeta e qual o efeito estilístico de suas criações no texto literário. O livro divide-se em 10 capítulos além de uma introdução e uma conclusão: Primeiras palavras, A renovação lexical, A criação neológica estilística, Criações fonológicas, A derivação: expressividade e produção de sentido, Criações por aglutinação, Criações por justaposição, Cruzamentos lexicais, A desagregação vocabular: um processo estilístico, Estrangeirismos, As criações lexicais nos poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade, Concluindo. Os dois primeiros capítulos são teóricos e referem-se à importância da renovação lexical e da criação neológica estilística. Nos demais capítulos, é feita uma análise das criações lexicais drummondianas de acordo com o processo de formação do item neológico. O último capítulo é dedicado às criações lexicais encontradas nos poemas eróticos de O amor natural.Trata-se de uma obra de interesse acadêmico para os que estudam Carlos Drummond de Andrade e para os interessados em Lexicologia, Estilística, morfologia e Análise Linguística. (AU)