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A questão da origem das representações elementares e as modulações do pensamento kantiano

Resumo

Trata-se de examinar a posição de Kant acerca da origem das representações elementares, com ênfase particular na crítica do filósofo ao inato, sua diferença em face do a priori e a sorte de consenso (do ponto de vista histórico e também do conceitual) expresso pela fórmula aquisição originária. Permeada por um mesmo repertório de expressões, a questão da origem em Kant, afora os conceitos a priori e aquisição originária, compreende ainda, em especial, disposição e germe, além de implantar e plantar, e, claro, inato e incriado. Facilmente identificável, o léxico em pauta é instrumento tão necessário para o mapeamento inicial do problema quanto insuficiente para a supressão de seus meandros, tal se devendo, em parte, ao modo ambíguo como é empregue por Kant. A este conjunto dever-se-á acrescentar ainda pré-formação e epigênese, expressões designadoras de muita polêmica no século XVIII, em cujo uso metafórico, porém, Kant nem sempre será claro. Esta relação com a biologia, à primeira vista acessória, representará um frutífero elemento interno de pré-compreensão de quanto é dito ao longo do século XIX a respeito do a priori kantiano, erradamente revivificado, então, à luz da psicologia e da psicofísica. Em última análise, pois, a compreensão tradicional de inato e inatismo será, aqui, parte da cena a examinar, ainda que sempre em função do esclarecimento da questão proposta. Serão de grande importância, no tocante a isto, referências de Leibniz e Descartes ao tema, através das quais, em particular, verificar-se-á o uso já por eles feito de germes e disposições, no mesmo contexto no qual depois serão reempregues por Kant. Muito mais importante do que a coincidência vocabular, porém, será o sentido dado por estes filósofos ao inato, como lhe sendo apropriado, o qual, frustrando a expectativa de uma diferença irreconciliável frente ao a priori crítico, em parte a ele se acomodará, não em desfavor do último (erradamente identificado ou aparentado com o inato, como representação acabada), mas em favor de uma outra compreensão de si próprio. Esta nova alocação das peças (com Descartes e Leibniz, de um lado, Kant, de outro) não somente explicará as representações em jogo, como permitirá, na extremidade oposta, na filosofia e na ciência do Oitocentos, melhor compreender a posição de inato e a priori (vítimas, então, de renovada mistura), favorecendo a trama de um fio condutor interpretativo, que, sem camuflar diferenças, garanta a unidade do pensamento kantiano. (AU)