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Imaginando João Cabral imaginando

Resumo

Apresentação do livro Imaginando João Cabral imaginando. Haveria ainda espaço para mais um livro sobre João Cabral de Melo Neto? Além do fato que a crítica cabralina é já rica e abundante, o lugar de destaque do poeta na literatura mundial não precisa de demonstração. Contudo, talvez certa teorização crítica da obra de João Cabral tenha duravelmente obstruído nossa capacidade para ler sua poesia, tornando-nos surdos à potência de sua imaginação poética. Buscar a elucidação das causas teóricas desta leitura obstruída a fim de desbastar os caminhos de uma nova interpretação da poesia de João Cabral centrada na inventividade estrutural e simbólica de sua poesia imaginativa: este é o desafio assumido pelo presente ensaio. O ponto de partida deste trabalho é a contestação argumentada do postulado racionalista, o qual, dominando na tradição acadêmica da leitura do poeta, impõe à obra um modelo único e definitivo. Esta influência é tal que impregna também as tentativas críticas de libertação do modelo, impedindo-as de alcançar o nível da mudança de paradigma. Nesta perspectiva, a autora: 1 - Mobiliza conceitos poéticos que parecem esclarecedores para a compreensão da gênese da poesia cabralina, estudando obras ainda órfãs de leitura (os Primeiros poemas), e lê pelo prisma da exaustividade aqueles poemas que integram livros publicados por João Cabral entre 1942 e 1950 - de Pedra do sono a O cão sem plumas. 2 - Analisa criticamente as relações mantidas por João Cabral com as Poéticas surrealistas e simbolistas com o objetivo de deslocar os conceitos habitualmente associados à ideia de racionalidade. Mostrando a falta de inteligibilidade desta ideia enquanto categoria teórica independente, a autora, pelo contrário, salienta sua dependência em relação ao trabalho de imaginação do poeta. A tese central do ensaio consiste em atribuir as competências estrutural e simbólica de João Cabral à imaginação criadora, e não à racionalidade. 3 - Ensaiando, já no final da segunda parte deste texto, e sobretudo na terceira parte, um olhar mais sintético sobre a elaboração de imagens do Pernambucano, explora fenomenológica e reflexivamente, numa perspectiva de inspiração bachelardiana, a coerência e a originalidade próprias da imaginação cabralina, vinculando-a ao campo da vivência subjetiva e de sentimento.Nesta esfera, a autora insiste no estudo da subjetividade do poeta, definida como luta para produzir valores pessoais, e mostra como ele está tomado por certa contradição que se expressa na recusa de objetivar por meio da linguagem sua relação estabilizada com a história, por isto sucumbindo à tentação de problematizar na poesia ambiguamente a existência do passado e dos discursos alheios. Espera-se por um lado, com este trabalho, poder contribuir para a leitura acadêmica de poemas pouco estudados de João Cabral, e por outro lado, espera-se também contribuir para a abertura de espaços críticos estimulantes para outras pesquisas de imaginação poética: no caso específico de João Cabral, pesquisas livres da obrigação de acatarem a postulação prévia de conceitos racionalistas tidos como indiscutíveis que dificultam, muito mais do que simplificam, a variedade e sutileza das investigações críticas às quais a obra do poeta pernambucano convida. (AU)

Matéria(s) publicada(s) na Agência FAPESP sobre o auxílio:
João Cabral de Melo Neto relido pela chave da imaginação