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Corpo e estilo

Resumo

Este livro, na esteira dos estudos sobre a enunciação e o discurso, desenvolve a noção de estilo. Para isso traz à luz o corpo de um sujeito "que fala" por meio da totalidade de seus textos, enquanto neles se processa a presença firmada conforme um modo peculiar de dizer. A partir do lugar teórico da semiótica dita "Escola de Paris", reúnem-se, ao viés narrativo e discursivo de tal semiótica, seus desdobramentos tensivos, os quais se mostram comprovadamente vinculados ao método fenomenológico do pensamento. A fenomenologia é, pois, convocada, na medida em que elucida os princípios tensivos, que cuidam do sensível e da percepção como efeitos de sentido, isto é, como elementos reconhecíveis na arquitetura dos enunciados. Desse modo, enquanto é refinada a noção de estilo - de gênero, de autor e de época -, fica esclarecido o princípio de que o sensível rege o inteligível na configuração de um sujeito-no-mundo, o que se torna possível por meio de uma análise que contempla as condições de emergência do corpo, enquanto se coteja a literatura com a mídia e com as artes plásticas. O sujeito, cujo corpo é seu próprio estilo, visto como postado diante de nós por meio dos enunciados que ele mesmo produz, apresenta-se no viés judicativo e ético e no viés de quem está afetado emocionalmente pelo mundo, o que o destaca segundo suas paixões. Nesse ponto são desenvolvidos meios de descrever paixões, tais como o desdém, a admiração e a honra, à proporção que tais paixões se definem de acordo com vetores estilísticos. A partir da voz jornalística de Luiz Felipe Pondé, por exemplo, é trazida à luz a paixão do desdém; a partir de poemas de Cecília Meireles, a admiração; a partir da estética neoclássica, que junta liras de Tomás Antônio Gonzaga e um quadro de Davi, a honra. A paixão se comprova na relação estabelecida com o estilo - de gênero, de autor, de época - e a enunciação, vista enquanto é processada no próprio ato de enunciar, remete a um sujeito que se firma como ator, isto é, um sujeito encarnado por meio da semântica discursiva e radicado nas oscilações tensivas, que supõem afeto e emoção. Pensar no corpo em processo, em marcha, conduz à investigação de determinados aspectos do ator. Então o aspecto, categoria tradicionalmente ligada ao tempo nos estudos linguísticos, passa a ser tratado na constituição do corpo do ator, para o que é levado em conta um viés e outro da observação que radica um e outro ponto de vista do enunciador sobre o mundo: o viés que ilumina o social, o viés que ilumina o sensível, sem que um ou outro seja excludente na constituição do sujeito-no-mundo. O colunista de jornal, mediante a inclinação para ver e fazer ver prioritariamente o mundo historicizado, modulará sua voz com um tom afetivo próprio, para o que conotará seu texto e seu próprio corpo de modo peculiar. A poetisa, mediante um devir ou um vir-a-ser que privilegia o território do sensível, mediante a voz radicada nas profundidades da estese, inaugura um mundo novo, enquanto conota seu texto e seu próprio corpo de modo peculiar. O corpo, considerado nas multiplicidades de visada do sujeito sobre o mundo, confirma-se correlacionado a um mundo que se mostra de maneira vária ao sujeito, do que decorre o estilo, a ser vivido como experiência sensível. (AU)