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O método cético de oposição na filosofia moderna

Resumo

O objetivo do livro é estudar como alguns filósofos modernos retomaram o que Sexto Empírico chamou de o "princípio constitutivo" do ceticismo antigo. Esse princípio, ou método cético de oposição, é o de que se pode opor a toda proposição uma proposição contrária com igual força persuasiva. Para os céticos antigos, o resultado natural e inevitável de um uso imparcial da razão seria a suspensão do juízo. Assim, a razão estaria dividida entre a tese e a antítese, incapaz de se decidir por uma dessas, sustentando simultaneamente ambas, e acabaria por anular-se a si mesma. A questão é não somente saber como, exatamente, o ceticismo moderno se utilizou desse método, adaptando-o ao contexto da filosofia moderna, mas também como o dogmatismo moderno reagiu a esse novo uso, procurando responder-lhe de modo a neutralizá-lo. Montaigne é uma figura crucial para o desenvolvimento do ceticismo moderno. A partir da ideia de que filosofar é duvidar, o primeiro capítulo examina a relação do ceticismo de Montaigne com o ceticismo antigo. De um lado, mostram-se os elementos do ceticismo antigo de que Montaigne se apropria, como a divisão da filosofia em três seitas e o método cético da oposição. De outro lado, identificam-se as inovações introduzidas por Montaigne nesses mesmos elementos céticos. O segundo capítulo, sobre Bacon, defende que o ceticismo é um interlocutor privilegiado para a elaboração da recusa baconiana da tradição filosófica, mas que essa recusa não é cética. Para sustentar essa interpretação, examino a importância do ceticismo e seus sentidos nas obras de Bacon; depois, apresento e avalio os argumentos de duas interpretações principais, mostrando suas deficiências; finalmente, exponho as análises de Bacon das proposições "nada é conhecido" e "nada pode ser conhecido" para mostrar as muitas semelhanças e as diferenças cruciais entre Bacon e os céticos.Pascal será um leitor assíduo e atento de Montaigne e de Descartes. A combinação do ceticismo de Montaigne e do ceticismo cartesiano alimentam as reflexões pascalianas sobre o ceticismo. O terceiro capítulo trata de mostrar como Pascal inventa o "ceticismo puro" e, integrando à sua própria filosofia o método cético de oposição, procura transcender a perspectiva cética e, assim, a própria filosofia. O contexto religioso foi decisivo para a retomada do ceticismo antigo, dando-lhe grande impulso. La Mothe Le Vayer, Simon Foucher, Pierre-Daniel Huet e Pierre Bayle discutiram as relações entre a dúvida cética e a fé cristã. O quarto capítulo investiga uma questão tradicional: até que ponto a fé cristã pode conviver com o ceticismo? Bayle aplicou de maneira fiel e original o método cético de oposição às questões filosóficas. Nas suas mãos, entretanto, o método cético de oposição recebeu um novo tratamento, sem perder suas características essenciais. No quinto capítulo, procuro entender o papel desempenhado pelo método de oposição na tarefa de historiador da filosofia tal como Bayle a entende no Dicionário; e investigo o papel desse mesmo método na reflexão filosófica de Bayle. No sexto capítulo, investigo como Hume se tornou cético. Ver-se-á que o papel desempenhado pelo método cético de oposição nesse itinerário rumo ao ceticismo, embora não negligenciável, é menor do que se poderia supor. Hume apresenta argumentos originais e extraídos sobretudo da filosofia moderna, como os de Berkeley, para chegar ao ceticismo. O sétimo capítulo dedica-se às reflexões de Kant sobre o ceticismo moderno. O próprio Kant confessou que a Crítica da razão pura é uma resposta a Hume; e também disse, em carta, que as antinomias estão na origem de sua filosofia crítica; além disso, tem sido exaustivamente debatida a refutação que Kant dirige ao ceticismo cartesiano. O último capítulo debruça-se sobre como Kant concebeu, elaborou e respondeu a três formas eminentemente modernas do ceticismo: o ceticismo cartesiano; o ceticismo humeano; o ceticismo bayleano. (AU)