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A teoria semiótica como epistemologia imanente. Uma terceira via do conhecimento

Resumo

Em tese de livre-docência na USP - "A Teoria semiótica como epistemologia imanente. Uma terceira via do conhecimento" - defendi duas hipóteses: (i) a Semiologia de Saussure, fundada no princípio da arbitrariedade do signo se põe como verdadeira epistemologia do conhecimento. O ato semiológico de linguagem impõe ao sujeito, pelas categorias desta, uma apreensão do mundo - via estratégias discursivas de veridicção, de ilusão referencial, de efeito de realidade e de verdade - o modo como vai peremptoriamente criar o mundo da fenomenologia humana; (ii) derivado do ato semiológico, propus o conceito inédito de semiocepção como nomeação desse ato de apreensão e de construção do mundo humano. Sabemos que nas pesquisas atuais, é o conceito de percepção que vem sendo mais utilizado para explicar a emergência do sentido. Elaborado milenarmente pelas antigas filosofias, vem sendo continuamente atualizado pelas psicologias (experimentais, comportamentais, Gestalt) e, mais ainda, pela filosofia fenomenológica de E. Husserl e M. Merleau-Ponty. A percepção foi também baliza para a proposição, pela neurobiologia de F. Varela e H. R. Maturana, do conceito de enação. Vem sendo também referenciada nas pesquisas das neurociências em geral que têm nas operações neuronais o comando central de nossa apreensão do mundo, tarefa que caberia bem nomear de neurocepção. Ora, diante desses estudos e proposições, cabe verificar em que medida o conceito de semiocepção pode alimentar o debate sobre a emergência do sentido à escala da fenomenologia humana. Sua novidade teórica e potencialidade heurística está em que (i) pode-se evitar o idealismo filosófico, que deposita nas "faculdades" do espírito - nas astúcias da Razão - o poder de gestão da intelecção do mundo; (ii) podem-se contornar as dificuldades do naturalismo realista que entende todo o poder da percepção natural dos seres (animais ou humanos) como atributos, equipagens, propriedades, "morfogenéticas" ou "epigenéticas" da matéria carnal dos corpos, como dom por Dama Natureza, espécie de "criacionismo" recôndito, e inconfessado pela maioria das ciências naturalistas, em que pesem os nomes e expoentes dessas ciências, que gozam de imenso prestígio no mundo científico; (iii) tem chances de contornar os "saltos mágicos" que se dão nas "passagens de nível": do nível inerte da matéria ao nível vivo dos organismos, dos níveis protomórficos dos animais protozoários aos níveis mais complexos do sistema nervoso central dos animais; destes níveis à complexidade da mente humana; das transduções operadas entre os registros óticos das frequências de ondas operados pelos olhos ao registro semântico de sua resolução nas "cores" que a linguagem impõe aos sujeitos falantes (para dar exemplo de um dos sentidos humanos de captação exógena). O conceito de semiocepção procura evitar as dificuldades da transcendentalidade filosófica do espírito do sujeito, bem como a hipóstase das "propriedades" naturais prévias das pesquisas naturalistas, de vez que se funda na objetividade dos discursos, nas astúcias da enunciação, via operação semiológica das linguagens, na tarefa de apreensão e de construção do mundo humano. Em suma, a semiocepção é lançada ao debate frente ao conceito de percepção, àquele de enação, e ao de neurocepção que delega aos neurônios a tarefa de regência do funcionamento de apreensão do mundo pelo homem. As pesquisas serão efetuadas na Universidade de Bolonha sob a supervisão de Francesco Marsciani - cuja tese de doutoramento de Estado, recentemente publicada (2012) se voltou à análise da semiótica greimasiana frente à filosofia fenomenológica de Husserl e Merleau-Ponty - para avançar a primeira parte da tarefa: colocar frente a frente o conceito husserliano e merleaupontiano de percepção com o de semiocepção para verificar em que medida a teoria semiótica poderá ajustar suas conceptualizações futuras no que tange ao (difícil) problema da emergência do sentido humano do mundo. (AU)