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Aby Warburg e a astrologia

Processo: 17/18551-4
Linha de fomento:Auxílio à Pesquisa - Regular
Vigência: 01 de março de 2018 - 29 de fevereiro de 2020
Área do conhecimento:Linguística, Letras e Artes - Artes - Fundamentos e Crítica das Artes
Pesquisador responsável:Cássio da Silva Fernandes
Beneficiário:Cássio da Silva Fernandes
Instituição-sede: Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH). Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Campus Guarulhos. Guarulhos , SP, Brasil
Assunto(s):Astrologia  História da arte  Renascimento  História da cultura 

Resumo

Esta pesquisa tem como objetivo percorrer o conjunto de escritos do estudioso alemão, Aby Warburg (1867-1929), sobre o tema da astrologia. O corpus da pesquisa é composto pelo conjunto dos escritos de Warburg sobre a astrologia, que consta de 13 textos, dos quais dez inéditos em língua portuguesa e três inéditos mesmo em idioma original (alemão). Esse material, composto de textos datilografados, encontra-se, em grande parte, no acervo da Scuola Normale Superiore di Pisa (Itália). Nosso trabalho incluirá também a verificação da documentação complementar a esse corpus documental, custodiada no acervo do Warburg Institute de Londres. O estudo que aqui se propõe permitirá, portanto, seguir os escritos de Warburg voltados para o tema da astrologia, que cumprem um arco temporal que vai de 1908 até pouco antes de seu desaparecimento, em 1929. Nosso intento é identificar e analisar os diferentes momentos de sua pesquisa sobre astrologia no Renascimento, além de localizar e contextualizar esta produção, a fim de contribuir para o debate acerca da abordagem proposta pelo historiador para uma "ciência da cultura" (Kulturwissenschaft). O produto final de nossa investigação constará de estudos compreensivos (a serem publicados em revistas especializadas) e do livro com os textos de Warburg sobre astrologia, traduzidos para a língua portuguesa.Formado em universidades alemãs e com estudiosos que atuavam na institucionalização do Kunsthistorisches Institut de Florença, Warburg freqüentou ambientes eruditos que comunicavam a História Social da Arte com a História da Cultura, a História das Religiões e a nascente Antropologia. Assim, os cultos religiosos, as festividades, a cultura livresca e literária, a história da magia e da astrologia, consideradas então zonas intermediárias para o estudo histórico-artístico eram, para ele, as mais importantes para revelar o complexo de problemas de onde emergia a obra de arte, entendida como expressão simbólica. Assim, a astrologia ocupou um lugar importante em sua indagação histórica, ao lado da magia, a meio caminho entre a religião e a ciência, sendo ainda um dos grandes temas representados em imagem pela cultura do Renascimento. Segundo ele próprio, este amplo estudo vislumbrou a "tarefa de considerar a obra de arte não apenas como espelho da vida histórica, mas também como instrumento de orientação no cosmo celeste".O produto do trabalho de Warburg permite ainda observar os meandros de sua relação intelectual com o filólogo Franz Boll (1867-1924), e com o amigo e principal colaborador da fase final de sua vida, o filósofo Ernst Cassirer (1874-1945). Se Cassirer compreende o papel da matemática e da lógica na formulação de uma nova ciência da natureza, como elemento que reformula a relação entre indivíduo e cosmos na época de Galileu e de Giordano Bruno, Warburg concebe paralelamente o lugar do astrolábio como uma ferramenta mental a impor limites às imagens demonológicas tardo-medievais como forma de conhecimento astrológico. Para Warburg, era exatamente a matemática, somada à concepção filosófica do infinito, a portar uma nova organização do cosmos e a promover a possibilidade de vitória da razão sobre as fobias que preencheram de imagens demoníacas as representações astrológicas, ainda que os dois universos mentais convivessem por longo tempo. A reformulação da relação entre indivíduo e cosmos, proposta pelas primeiras concepções da ciência moderna, atuava diretamente sobre uma nova consciência do homem em relação aos astros e, consequentemente, a respeito do poder que exercem sobre a vida prática. Isso representava uma vitória da experiência sobre a superstição, da medição e do cálculo sobre a especulação, estabelecendo uma nova lógica para o conceito de natureza. Esta problemática percorre a pesquisa de Warburg sobre o processo de superação da visão de mundo marcada pela astrologia medieval, fundamentada pelo signo do medo dos demônios e pelas formas mais primitivas da causalidade religiosa. (AU)