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A ciência: entre o mercado e a biossociodiversidade"

Processo: 13/08670-5
Linha de fomento:Bolsas no Brasil - Pós-Doutorado
Vigência (Início): 01 de junho de 2013
Vigência (Término): 02 de junho de 2014
Área do conhecimento:Ciências Humanas - Filosofia - Epistemologia
Pesquisador responsável:Pablo Rubén Mariconda
Beneficiário:Ana Tereza Reis da Silva
Instituição-sede: Instituto de Estudos Avançados (IEA). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo , SP, Brasil
Vinculado ao auxílio:11/51614-3 - Gênese e significado da tecnociência: das relações entre ciência, tecnologia e sociedade, AP.TEM
Assunto(s):Filosofia da ciência   Mercado   Ciência

Resumo

O projeto de pesquisa de pós-doutorado tem como objeto de estudo a relação entre o avanço da ciência, os interesses de mercado e a preservação da biossociodiversidade. Trata-se, no sentido ético-político, de pôr em questão o progresso da ciência e seus efeitos. E, no sentido ontológico, de revisitarmos as definições de homem que levaram a cabo o domínio da natureza como condição para a realização da felicidade humana (DUPUY, 2009; MORIN, 2007; ARENDT, 2005). Com efeito, o trabalho apresenta uma análise sobre as disputas de sentidos concernentes à relação entre a ciência e a crise ecológica nos termos a seguir apresentados.A teoria socioambiental tem frequentemente sustentado que o avanço da ciência e da técnica efetivou uma modificação profunda na relação sociedade/natureza. Esse debate envolve disputas de sentidos entre dois campos teóricos distintos. O primeiro respalda-se na equação de que é preciso preservar a biodiversidade porque a continuidade da espécie humana depende da sobrevivência dos ecossistemas, dos serviços ambientais e das matérias-primas fornecidas, sem contrapartida, pela natureza (VEIGA, 2010; SANTOS, 2003). Para o segundo, a natureza comporta uma finalidade independente dos interesses humanos; logo, sua importância não pode ser aferida em função de valores de uso e de troca. É preciso deixá-la existir naquilo que lhe é próprio e, nesse sentido, a natureza se converte em "responsabilidade humana", que deve aliar preservação da biodiversidade e da sociodiversidade (JONAS, 2012).No campo da racionalidade ambiental, a questão ecológica constitui uma crise do sistema capitalista e de seus fundamentos (a razão instrumental), cujos efeitos comprometem os limites biofísicos dos ecossistemas, ampliam as desigualdades sociais e difundem riscos ambientais globais nem sempre tangíveis, que desconhecem fronteiras territoriais e de classe (LEFF, 2010; BECK, 2010; GIDDENS, 1991). Vulnerável às relações de poder e capturada pelo mercado, a tecnociência responde a interesses nem sempre condizentes com a premissa de um desenvolvimento que respeita os limites biofísicos e promove justiça social.No campo da racionalidade econômica, a questão ecológica é entendida como uma crise em si que, embora afete o modelo hegemônico de produção e de consumo, pode ser mitigada pela tecnologia. Vinculada aos postulados da ecoeficiência, na lógica da governança do capital (empresarial e dos negócios), essa vertente aparece como uma alternativa capaz de mobilizar diferentes sujeitos e equacionar múltiplos interesses (ALIER, 2011). O documento final da Conferência Rio+20, realizada em 2012, traz esta tônica: mirar um desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente justo, recorrendo ao arcabouço da economia verde e das tecnologias limpas. Mas, ainda que seja possível desacoplar o crescimento econômico da depleção dos recursos naturais, essa possibilidade não está disponível a todos os países.Esses entendimentos perpassam, portanto, os argumentos sobre a crise ecológica: de um lado, a ideia de que os problemas socioambientais podem ser equacionados por uma tecnologia cada vez mais eficiente. De outro, a ideia de que o avanço da tecnociência responde à colonização da sociodiversidade e da biodiversidade para sustentar o modelo hegemônico de produção e de consumo, o que nos levará fatalmente a um colapso das bases biofísicas da existência humana. Em consequência, não basta questionar as concepções hegemônicas de homem, natureza e ciência. É preciso trazer para o terreno do político e do ético a lacuna que o progresso da ciência e da técnica estabeleceu entre o homem e a natureza. Argumentaremos aqui que o avanço da tecnociência corresponde à concepção de homem como sujeito racional, que se projeta de forma absoluta sobre a natureza irracional (WOLFF, 2009; MOSCOVICI, 2007). Opera, assim, um arcabouço representacional que estabelece o lugar do humano e justifica a instrumentalização da natureza.