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Raça, imprensa e literatura no mundo transatlântico do Século XIX

Processo: 19/05283-7
Linha de fomento:Bolsas no Exterior - Estágio de Pesquisa - Doutorado
Vigência (Início): 01 de outubro de 2019
Vigência (Término): 31 de maio de 2020
Área do conhecimento:Linguística, Letras e Artes - Letras - Literaturas Estrangeiras Modernas
Pesquisador responsável:Jefferson Cano
Beneficiário:Ligia Cristina Machado
Supervisor no Exterior: Pedro Meira Monteiro
Instituição-sede: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Campinas , SP, Brasil
Local de pesquisa : Princeton University, Estados Unidos  
Vinculado à bolsa:18/13697-3 - Mestiçagem e afrodescendência no contexto Atlântico: literatura abolicionista do século XIX, BP.DR
Assunto(s):Literatura francesa   Século XIX

Resumo

No fim do século XVIII, com a Revolução do Haiti, a discussão a respeito do espaço de negros e de afrodescendentes passou a ser considerável no meio literário. O medo de que uma revolução negra como aquela pudesse se repetir em outros estados escravagistas e o assombro diante de tal vitória fez proliferar os textos sobre a revolução nos mais diversos formatos: cartas, contos, romances, literatura de viagem entre outros. Literariamente, nas produções ficcionais, tentar explicar a vitória negra na ilha caribenha era um grande desafio para os autores europeus que, embebidos nas teorias raciais do período, não conseguiam ver a África e seus descendentes sem inferiorizá-los. Pode-se dizer que uma de suas questões era tentar explicar a inferioridade negra proclamada pelas teorias raciais e a sua transgressão representada por eventos como a Revolução do Haiti. Se por um lado as teorias raciais se esforçavam para provar uma inferioridade científica dos africanos e seus descendentes, por outro, para o meio literário não seria tão simples negar essa humanidade em suas criações ficcionais. Mesmo que não fosse a intenção original, ao tentarem desenvolver personagens literários eles eram obrigados a formular personalidades e justificativas para as ações de seus personagens, trazendo à tona o que imaginavam que seria a reação de negros (e "mulatos") em determinados enredos e situações dramáticas. Formava-se assim, de maneira mais sistematizada, as primeiras representações do negro na literatura. Na França, Victor Hugo escreveu, no início de sua carreira como escritor, Bug-Jargal (1826), história que se passa durante a revolução e tem diversos personagens negros - desde o guerreiro africano heroico até o mulato degenerado. Por conta da fama do autor, a obra circulou em várias edições no Estados Unidos, que no começo do século intensificava as discussões sobre a escravidão. Para a sociedade afro-americana, no entanto, o interesse pela Revolução do Haiti tinha outros sentidos, os quais também foram representados nas primeiras obras ficcionais escritas por afro-americanos. Theresa, the haytien tale (1828) é um desses exemplos no qual a imagem da revolução e dos negros é notavelmente diversa da construída por Hugo. Ainda assim, será apenas no meio do século que a representação do negro ganhará uma nova projeção. Entre as décadas de 1830 e 1860 o fenômeno das narrativas escravas fazem crescer os escritos sobre a escravidão e sobre a identidade negra a partir do ponto de vista deles mesmos. Em 1845, a história de Frederick Douglass se torna uma das mais famosas dessas narrativas. Em 1852, a escritora americana Harriet Beecher Stowe, branca e da classe média, escreve A cabana do pai Tomás na qual ela posiciona-se decididamente contra a escravidão, ainda que a partir de um discurso racista. A cabana do pai Tomás viraliza ao redor do mundo em proporções anteriormente atingidas apenas pela bíblia. A intenção da pesquisa é verificar como a imagem do negro literário foi construída entre autores consagrados e difundidos no século XIX, como Victor Hugo e Harriet Stowe, e outros trabalhos, escritos por mulheres e negros, que tentaram dar sentido para o indivíduo negro dentro da produção literária deste período inegavelmente racista. Através da leitura de teóricos raciais, periódicos afro-americanos e cartas de alguns escritores, veremos como os negros foram representados na literatura desse período para verificar o que mudou e o que foi mantido entre a independência do Haiti e a guerra civil americana.