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Entre as serras : etnoecologia de duas comunidades quilombolas no sudeste brasileiro

Autor(es):
Emmanuel Duarte Almada
Número total de Autores: 1
Tipo de documento: Tese de Doutorado
Instituição: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Data de defesa:
Membros da banca:
Cristane Simão Seixas; Célia Regina Tomiko Ftemma; Deborah de Magalhães Lima; Ricardo Ferreira Ribeiro
Orientador: Carlos Alfredo Joly
Resumo

O moderno e hegemônico modelo urbano-industrial de desenvolvimento capitalista demonstra claros sinais de esgotamento e falência geral, expressa de forma especial pela crise socioambiental gerada pela degradação dos ecossistemas em todo o planeta. A construção de caminhos alternativos a esse modelo de desenvolvimento passa inevitavelmente pela promoção de uma ecologia dos saberes, a partir de um diálogo verdadeiro entre a ciência moderna e outras formas de saber e produzir conhecimento, tal como os chamados saberes tradicionais. O presente trabalho se insere dentro do escopo da etnoecologia, a qual pode ser entendida como um campo de cruzamento de saberes científicos e populares sobre o funcionamento dos ecossistemas. Utilizando uma abordagem quali-quantitativa, o objetivo do trabalho foi descrever de forma comparativa os saberes tradicionais de duas comunidades quilombolas situadas no sudeste brasileiro sobre alguns processos ecológicos, em especial as relações tróficas entre plantas e animais. Os saberes ecológicos das duas comunidades foram compradas tendo-se em consideração tanto as diferenças biofísicas que diferenciam os biomas que habitam (Mata Atlântica e Cerrado), bem como a história ambiental de cada região. Além disso, o trabalho propõe uma revisão crítica do fazer etnoecológico enquanto uma construção de um discurso sobre coletivos naturezas-culturas. Os resultados encontrados reforçam o caráter preciso e ao mesmo tempo dinâmico dos saberes ecológicos das comunidades tradicionais. Em geral, o conhecimento das comunidades sobre a ecologia das espécies investigadas no trabalho demonstrou-se tão ou mais detalhado quanto aquele existente na literatura científica disponível. Isso demonstra claramente o "desperdício de experiências humanas" que caracteriza a maioria das políticas de conservação da biodiversidade que não permitem a participação das comunidades locais dos processos decisórios. Algumas diferenças encontradas nos saberes ecológicos das duas comunidades aparentemente estão relacionadas as características de composição florística e a estrutura da comunidade vegetal dos ambientes campestres e florestais. No entanto, percebe-se que a história de vida dos indivíduos bem como a história ambiental são elementos fundamentais para a compreensão dos padrões encontrados. Por fim, uma análise dos saberes ecológicos das comunidades enquanto componentes de redes sóciotécnicas mais amplas indica os novos papéis que esses saberes tem desempenhado na ação política desses grupos. A inserção das comunidades estudadas nas dinâmicas sociopolíticas regionais e globais tem provocado releituras locais dos significados de seus saberes tradicionais. Além do caráter cultural, esses saberes tem se tornado ferramentas políticas na luta por direitos territoriais e identitários das comunidades tradicionais. Desta maneira, a prática de uma "etnoecologia abrangente" caracteriza-se por uma percepção do caráter híbrido dos saberes ecológicos, componentes de uma rede de relações em expansão no tempo e no espaço, a um só tempo tradicionais e modernos, locais e globais, expressão da natureza e da cultura dos povos. (AU)

Processo FAPESP: 10/01466-5 - Entre as serras: os saberes, o povo, o cerrado e a floresta
Beneficiário:Emmanuel Duarte Almada
Linha de fomento: Bolsas no Brasil - Doutorado