Resumo
O aleitamento natural representa uma extraordinária integração imunológica entre mãe e filho que evoluiu ao longo de milênios para nutrir e proteger os bebês de doenças infecciosas durante esse período crítico de vulnerabilidade do sistema imune. O leite humano contém uma grande variedade de fatores bioativos com propriedades anti-infecciosas, em geral, em maiores concentrações no colostro - que são: oligossacarídeos, lisozima, lactoferrina, lactoperoxidase, mucina, defensinas, citocinas, quimiocinas, hormônios e fatores de crescimento, proteínas do sistema complemento, ácidos nucléicos, incluindo microRNAs, leucócitos viáveis, entre muitos outros. Mas certamente os fatores mais estudados têm sido os anticorpos da classe IgA, sendo o colostro a secreção com as maiores concentrações desta classe de imunoglobulina, que está presente em sua forma polimérica associada ao componente secretor, sendo denominada IgA secretória (SIgA). Estes fatores interagem entre si e também com a mucosa do trato digestivo e do trato respiratório superior do lactente, provendo imunidade passiva efetiva e fatores de crescimento e diferenciação, além de propiciar a formação de uma microbiota intestinal saudável, ou seja, com relevância para a saúde atual e futura da criança. É notável o aumento do interesse pelos aspectos imunológicos do leite humano na literatura médica nos últimos anos, em particular durante a pandemia de COVID-19, sendo essa uma das linhas de pesquisa do nosso grupo desde o começo dos anos 1980 (55 publicações e 23 Doutorados e Mestrados). A proteção anti-infecciosa de recém-nascidos (RN) e lactentes pelo aleitamento materno já está bem estabelecida por inúmeros estudos epidemiológicos e clínicos e mais recentemente, tem crescido o interesse na investigação do potencial terapêutico dessa secreção para RN que não conseguem sugar (colostroterapia) e pacientes com deficiências imunológicas, nos quais já se dispõem de evidências do seu efeito protetor. Pelo aumento das concentrações de anticorpos, a vacinação da gestante e/ou lactante pode elevar ainda mais o potencial protetor do leite para determinadas infecções. Neste temático tencionamos avaliar o potencial terapêutico do leite humano: i) em RN operados imediatamente após o nascimento por malformações do trato digestivo ou da parede abdominal (subprojeto 1); ii) uso de preparação de IgA por via nasal para adolescentes e adultos imunodeprimidos com rinossinusopatia crônica (subprojeto 2), iii) níveis de anticorpos anti-SARS-CoV-2 em colostro e leite de mães vacinadas visando também a sua utilização em imunodeficientes (subprojeto 3). Os outros subprojetos têm um caráter de investigação básica e se propõem a explorar a polirreatividade da IgA visando à construção de anticorpos monoclonais (subprojeto 4) e a análise de microRNAs em leite de mães de RN a termo e pré-termo (com e sem malformações do trato gastrointestinal), com o intuito de explorar seu potencial futuro para utilização terapêutica em RN de risco (subprojeto 5). (AU)
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