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Sobre o intelecto em Aristóteles

Processo: 11/03425-7
Linha de fomento:Bolsas no Brasil - Pós-Doutorado
Vigência (Início): 01 de setembro de 2011
Vigência (Término): 31 de dezembro de 2013
Área do conhecimento:Ciências Humanas - Filosofia - História da Filosofia
Pesquisador responsável:Marco Antônio de Ávila Zingano
Beneficiário:Jean-Louis André Bernard Hudry
Instituição-sede: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo , SP, Brasil
Vinculado ao auxílio:09/16877-3 - Filosofia grega clássica: Platão, Aristóteles e sua influência na Antiguidade, AP.TEM
Bolsa(s) vinculada(s):13/22513-0 - O termo médio na dedução e na demonstração segundo Aristóteles, BE.EP.PD
Assunto(s):Filosofia grega   Aristotelismo   Verdade

Resumo

Não há atualmente consenso sobre a doutrina aristotélica do intelecto (nous), tal como está defendida no De anima III 5. O objetivo desta pesquisa consiste em mostrar que não há nada de estranho ou especial acerca do intelecto, pois esta noção está em acordo com todas as outras noções biológicas desenvolvidas no De anima. Aristóteles compara o intelecto afetado (passivo) com a matéria de uma coisa e o intelecto impassível (ativo) com a causa produtiva desta coisa. A analogia procura mostrar que o intelecto impassível é o princípio ou causa que produz pensamentos do mesmo modo como um artesão é o princípio ou causa que produz os artefatos. Contudo, isso é somente uma analogia. Dizer que o intelecto passivo é como a matéria não significa que ele contém elementos materiais; na verdade, o intelecto está separado do corpo, na medida em que não corresponde a uma ativação de um órgão corpóreo (429b4-5). Se a distinção entre os aspectos passivo e ativo do intelecto corre em paralelo com a distinção entre os aspectos material e formal de uma coisa real, então o intelecto é um composto, que dá conta de uma atividade de reflexão no corpo dotado de alma. Como tal, não há apoio para a visão tradicional que o intelecto ativo é um intelecto por si próprio. A dificuldade é que o intelecto é dito ser separado da alma. A alma é uma substância (ousia) no sentido de uma forma (eidos) em ato em relação a um corpo material organizado em potência (412a19-22). Mais precisamente, a alma é a "primeira atualidade"(hê protê entelecheia) de um corpo físico que tem a vida em potência (412a27-28). O intelecto ativo não pode ser como a alma, visto ser separado do corpo. Deve, portanto, ser considerado como um outro tipo de substância. Queremos sugerir que o aspecto ativo do intelecto é uma substância não-compósita, que é uma atualidade segunda (energeia) em contraste com a primeira atualidade (entelecheia) da alma. Em contraste, o aspecto passivo do intelecto corresponde à faculdade de pensamento (noetikon), que tem a potencialidade de vir a ser todos os pensamentos (431b2-12). Como faculdade, o aspecto passivo do intelecto está na alma, assim como as faculdades de percepção e imaginação. Neste sentido, o intelecto combina uma faculdade (aspecto passivo) com uma substância não-compósita. No entanto, por que o intelecto ativo é também "imortal e eterno" (athanaton kai aidion) (cf. Capítulo 5)? Metafísica IX sustenta que substâncias não-compósitas são atualidade (energeia) na medida em que não cessam de ser. Como tais, são imortais e eternas; mas tais termos não designam algo divino, menos ainda uma concepção platônica da inteligibilidade; significa somente que o aspecto ativo do intelecto está separado e sem mistura, não sendo afetado pela matéria. Enquanto uma faculdade é uma primeira atualidade a título de uma capacidade, um pensamento em ato é uma segunda atualidade a título de exercício desta capacidade; Aristóteles pensa a primeira atualidade, em relação à segunda, como sendo "de certo modo em potência" (dunamei pôs) (III, 4, 429b8). Assim, o aspecto ativo do intelecto é a atualização0 do aspecto passivo, isto é, o exercício da faculdade de pensamento. Este projeto de pesquisa segue a mesma metodologia de meus trabalhos prévios: 'Aristotle on Time, Plurality, and Continuity' in Logical Analysis and History of Philosophy (2009) e 'Aristotle on Meaning' in Archiv für Geschiche der Philosohie (no prelo). A saber, as posições filosóficas de Aristóteles devem ser analisadas em relação ao próprio texto, sem ser contaminado por teses externas, pois estas visões frequentemente constituem uma escapatória das dificuldades intrínsecas do texto. Neste sentido, queremos mostrar que o intelecto pode receber uma interpretação aristotélica que não tem de estar influenciada pelo neo-platonismo ou pela escolástica. (AU)