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Mestiçagem e afrodescendência no contexto Atlântico: literatura abolicionista do século XIX

Processo: 18/13697-3
Linha de fomento:Bolsas no Brasil - Doutorado
Vigência (Início): 01 de novembro de 2018
Situação:Interrompido
Área do conhecimento:Linguística, Letras e Artes - Letras
Pesquisador responsável:Jefferson Cano
Beneficiário:Ligia Cristina Machado
Instituição-sede: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Campinas , SP, Brasil
Bolsa(s) vinculada(s):19/05283-7 - Raça, imprensa e literatura no mundo transatlântico do Século XIX, BE.EP.DR
Assunto(s):Literatura francesa   Literatura brasileira   Abolicionismo   França (país)   Estados Unidos   Brasil   História do Século XVIII   Século XIX

Resumo

Esta pesquisa analisará um conjunto de obras literárias escritas na França, nos Estados Unidos e no Brasil no contexto transatlântico de desenvolvimento das defesas abolicionistas durante o Oitocentos. No fim do século XVIII, a Revolução Francesa (1789) e a propagação dos ideais de liberdade e de igualdade acabaram fortalecendo princípios ideológicos que levaram à Revolução do Haiti (1791). Nos Estados Unidos e no Brasil desenvolveu-se um sentimento de medo e temor por conta da natureza escrava dessa revolução e da forte presença desse regime em suas sociedades. O medo de que os escravos americanos pudessem se inspirar no Haiti motivou a longa demora para o reconhecimento deste Estado como país independente pelos americanos. Apesar do Haiti ter sido reconhecido pela França em 1825 ele só conquistou o reconhecimento americano em 1862, não coincidentemente quando a Guerra Civil Americana já havia começado. No Brasil, sentimento igual preocupava a Câmara dos deputados durante as discussões sobre a proibição do tráfico de africanos, nos anos de 1840 e 1850. Em pesquisa recentíssima Marco Morel investiga como as notícias sobre a revolução haitiana chegaram ao Brasil na primeira metade do oitocentos. O autor mostra também as conexões transnacionais e o fluxo de ideias que ocorriam através de textos que atravessavam o atlântico. Neste contexto o que se procura é entender a produção literária abolicionista que ganhou impulso no século XIX, mesmo momento em que começaram a se desenvolver as teorias raciais que procurariam determinar o espaço e a interação dos negros, principalmente os da diáspora, com os brancos colonizadores. É praticamente impossível desvincularmos essas questões do momento pós-revoluções vivido pelos dois lados do Atlântico. Tendo-se em vista a passagem do tempo como trabalhada por Braudel, essa pesquisa pegará os dois marcos da abolição: a revolução do Haiti (1791) e a abolição brasileira (1888), acontecimento que leva ao fim da escravidão gerada pelo tráfico transatlântico de pessoas. No meio desse período, a abolição americana e a publicação do best-seller A cabana do pai Tomás (1852), de Harriet Stowe, tiveram um impacto substancial na produção literária abolicionista brasileira. Este foi o primeiro romance americano com um impacto tão grande fora de seu país natal. Um milhão de cópias vendidas apenas no primeiro ano de publicação na Inglaterra e quatro traduções concomitantes em jornais franceses; apenas a bíblia havia vendido tantos livros. Em 1853 o romance de Stowe chegou ao Brasil, época em que a literatura brasileira ainda buscava seu formato de afirmação nacional. Essas conexões transnacionais aparecem em vários momentos da literatura brasileira. Gonçalves Dias faz referência direta ao livro Bug-Jargal (1826) de Victor Hugo em uma de suas poesias. Diversas peças de teatro e narrativas publicadas em jornais são uma clara releitura do romance A cabana do pai Tomás. José de Alencar se apropriou desse romance nos anos 1850 ao escrever O demônio familiar e Mãe, assim como Bernardo de Guimarães e Joaquim Manuel de Macedo, de diferentes formas, estavam pensando neste livro ao escreverem A escrava Isaura (1875) e Vítimas Algozes (1869), respectivamente. Em 1892, Júlia Lopes de Almeida é elogiada por A família Medeiros como uma obra que merecia ser chamada de A cabana do pai Tomás brasileira. Esses são apenas alguns exemplos de como o romance norte-americano publicado em 1852 teve ressonâncias durante todo o resto do século no Brasil. Assim, com uma seleção que pretende levar em conta a circulação de obras e a participação de minorias na produção literária abordaremos todo o século XIX tendo em mente propostas teóricas atuais que veem os acontecimentos históricos no contexto Atlântico e não apenas nacionais. (AU)

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