Resumo
A coagulação sanguínea é um processo complexo que envolve uma cadeia de eventos extra e intravasculares, extra e intracelulares que normalmente culminam na formação de um trombo e consequente hemostasia, em situações que de outra forma poderiam levar à importante perda de sangue e consequente morte. Entretanto, é necessário que este processo seja cuidadosamente regulado para evitar a formação excessiva e desnecessária de trombos, que poderiam levar à hipóxia e morte tecidual. De fato, a trombose é uma das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo, uma vez que está diretamente relacionada a doenças fatais e extremamente frequentes na população, como o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular encefálico isquêmico (AVEi). Existem dois tipos de trombose, a arterial e a venosa. Medicamentos antitrombóticos e antiplaquetários são eficazes no tratamento preventivo e/ou terapêutico dessas condições, todavia, o principal efeito colateral é a hemorragia, que pode ser fatal. Além disso, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), que são agentes antiplaquetários largamente utilizados na clínica, comumente levam a reações adversas gastrintestinais. Sendo assim, faz-se necessário a busca por novos medicamentos que possuam um perfil de ação mais seguro. Sabe-se que a hemostasia fisiológica pode ser influenciada por gasomediadores, dentre eles, o sulfeto de hidrogênio (H2S). Devido à natureza extremamente lábil do H2S, doadores com maior tempo de meia vida foram desenvolvidos para atuar como potenciais agentes terapêuticos, incluindo o AP39 e o ATB-346. O AP39 é um doador rápido de liberação mitocondrial de H2S que mostrou efeito citoprotetor em diversos tipos celulares, como células endoteliais e plaquetas, submetidas a condições de estresse oxidativo. O ATB-346, por sua vez, é um doador de H2S acoplado ao naproxeno. Este AINE, bem como o ATB-346, reduz rapidamente e de forma prolongada a atividade da ciclooxigenase (COX), efeito importante para diminuir a inflamação. Entretanto, enquanto o naproxeno frequentemente causa reações adversas gastrintestinais, tal efeito não foi observado com o ATB-346. Apesar de processos oxidativos, inflamatórios e trombóticos frequentemente se intercomunicarem, não se sabe se esses doadores de H2S exercem efeito antitrombótico e/ou antiplaquetário. Assim, utilizaremos ensaios in vivo e in vitro, além de moleculares, para medir a atividade antitrombótica e antiplaquetária do AP39 e do ATB-346. Nos ensaios in vivo serão utilizados vasos piais cerebrais de camundongos e medidos os tempos para indução do trombo e oclusão dos vasos sanguíneos piais. Esses vasos foram selecionados por serem palco do AVEi. Adicionalmente, serão dosados no cérebro: espécies reativas de oxigênio (EROs), in vivo, em região perivascular, concentrações de tromboxano B2 (TXB2), prostaciclina (PGI2) e H2S, as expressões de cistationina beta sintase (CBS), principal enzima produtora de H2S cerebral, caspase 1 e interleucina 1 beta (IL-1²). Foi visto que o H2S pode exercer parte dos seus efeitos via eixo caspase 1/IL1 ². In vitro, serão medidos os tempos de protrombina (TP) e de tromboplastina parcial ativada (TTPA) e a concentração de fibrinogênio em plasma pobre em plaquetas, as expressões plaquetárias de ±IIb²III integrina e de P-selectina em plaquetas estimuladas com trombina ou ADP e o tempo para formação de trombos em plasma rico em plaquetas, estimulado ou não com trombina ou ADP, bem como as concentrações de TXB2 e H2S neste meio. Serão medidas também a presença de lesões no estômago e realizado o plaquetograma. Assim, esperamos juntar evidências que contribuam com o uso do AP39 e/ou do ATB-346 como potenciais terapias eficazes para doenças trombóticas. (AU)
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