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Educação: uma herança sem testamento - Diálogos com o pensamento de Hannah Arendt

Resumo

Embora voltada prioritariamente para o campo do pensamento político, a obra de Hannah Arendt tem despertado grande interesse entre educadores, intelectuais e profissionais de educação nas últimas décadas. Essa notável repercussão de seu ensaio sobre a crise da educação pode ser atribuída, ao menos em parte, à originalidade de sua perspectiva analítica e ao vigor de suas críticas ao projeto de modernização da educação. Suas reflexões sobre esse tema, conquanto escassas e esparsas, representam uma radical inovação em relação à forma pela qual os discursos pedagógicos tendem a analisar, por exemplo, os vínculos entre educação e política ou o problema do significado da autoridade como elemento estruturador das relações educativas. Por outro lado, por suporem uma razoável familiaridade com sua complexa rede teórica e conceitual, muitas das alegações apresentadas em seu ensaio sobre A crise na educação têm sido frequentemente sujeitas a toda sorte de controvérsias e incompreensões. A presente obra procura elucidar a trama conceitual subjacente aos esforços de Arendt no sentido de compreender o impacto da ruptura da tradição na tarefa precípua da educação: a iniciação dos mais jovens em um mundo comum de heranças simbólicas e materiais cujo cultivo representa, simultaneamente, um compromisso com sua durabilidade pública e uma condição para sua renovação. Mas os ensaios aqui reunidos não se limitam a dar um panorama de suas reflexões sobre o tema. Eles incidem ainda sobre um complexo conjunto de problemas que emergem do diálogo entre a leitura das obras de Arendt e os dilemas, impasses e incertezas da experiência de educar e formar professores no mundo contemporâneo. Por essa razão, neles convoco outros pensadores e evoco novos acontecimentos, sempre com o propósito de expandir as reflexões de Arendt a campos e territórios aos quais elas originalmente não se destinavam, como no caso dos vínculos entre a atividade educativa e a liberdade ou no do sentido da formação humanista na constituição do sujeito e em sua inserção no domínio público. Mais do que ao conteúdo literal de seus escritos sobre o tema, procuro ser fiel à atitude para a qual as reflexões de Arendt nos convidam: o exercício do pensamento como forma de se reconciliar com a experiência de viver em um mundo no qual o passado cessou de lançar luz sobre o futuro e os homens se veem compelidos a buscar novas categorias para compreender sua condição presente. (AU)