Resumo
O cacau representa uma grande fonte de riqueza no Brasil, tanto para as regiões produtoras dos grãos como para aquelas onde se encontram as indústrias que usam estas amêndoas ou seus derivados. O Brasil já chegou a produzir 400.000 toneladas/ano de amêndoas de cacau no início da década de 80, alcançando hoje essa produção algo em torno de 150.000 ton. Esse volume é bem inferior ao necessário para a indústria, que está ao redor de 250.000 ton., obrigando essa a importar amêndoas de outros países como a Indonésia, os quais produzem cacau de baixa qualidade. A redução da produção brasileira foi ocasionada pela introdução da doença vassoura de bruxa na Bahia principal região produtora de cacau - mostrando as consequências que patógenos não controlados podem exercer na produção de frutos de cacau. Um grande esforço já foi realizado para entender o fungo Moniliopthora perniciosa e sua interação com o cacaueiro (Theobroma cacao) através do projeto genoma da vassoura de bruxa. Um resultado significativo deste projeto foi a comprovação do sucesso de uma estratégia de trabalho, que consiste na obtenção inicial de sequencias genômica, análise integrada dos genes identificados, levantamento de hipóteses para mecanismos de patogenicidade, realização de experimentos em diferentes áreas (microarrays, bioquímica, anatomia e fisiologia) para testar as hipóteses, integração dos experimentos e desenvolvimento de um modelo da interação do patógeno com o cacaueiro. Além disso, no caso da vassoura de bruxa foi possível o desenvolvimento de um pacote tecnológico, pela via de um manejo que quebra a sincronia do fungo com a planta na Bahia, o qual é a base de uma nova política pública para a recuperação do setor: o PAC do Cacau. É importante mencionar que todo o projeto é pontuado por publicações de qualidade, sendo a mais recente a descrição do genoma do fungo pela revista BMC Genomics. Além disso, tem sido foco de grande interesse da imprensa comum e do jornalismo científico, que vem divulgando os seus avanços. Neste projeto propomos o aprofundamento do estudo realizado com o fungo M. perniciosa e a expansão desta estratégia de trabalho para mais dois fungos patogênicos que representam uma ameaça à cacauicultura no Brasil e no mundo. O primeiro é o fungo M. roreri, o qual produz uma doença devastadora (monilíase) que limita a produção de cacau em diversos países da América do Sul e Central, mas que ainda não está presente no Brasil. Entretanto, esse patógeno já foi detectado em regiões de fronteira onde há produção de cacau e acredita-se que será inevitável a sua chegada às regiões produtoras do país. O segundo é a espécie Ceratocystis cacaofunesta, já presente no Brasil, produzindo a doença conhecida como mal do facão que leva à morte da planta infectada. Cada uma destas doenças, separadamente, produz grandes perdas na cacauicultura. O estudo dessas três espécies tem grande interesse científico, visto que estaremos comparando duas espécies de basidiomiceto de um mesmo gênero, possivelmente hemibiotróficas, e uma terceira, de outro filo, mas que apresenta mecanismos aparentemente semelhantes para provocar a necrose de plantas. Ao mesmo tempo, do ponto de vista tecnológico, o conhecimento dos mecanismos de patogenicidade destes fungos e da sua interação com a planta tem alto potencial para a geração de estratégias de combate e controle das doenças por eles produzidas. (AU)
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